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sobre assuntos que não conseguiremos entender nunca.

  • sexta-feira, 7 de agosto de 2009
  • Wash.
  • hoje, não por acaso, tive o insight de pensar que a vida é como um relógio. não um relógio qualquer. um bem específico; um relógio de pulso que em 1945 foi encontrado em Hiroshima e que marcava, congelado, a hora 15h39: hora exata que a bomba caiu no epicentro da explosão. momento fotográfico, 70 mil vidas ceifadas instantaneamente. claro, isso é muito mais significante do que se imagina, mais significante do que até onde vão nossos motivos obsoletos. mas pensa bem: um relógio, apenas um relógio, representando toda a razão por trás disso, cada vida e cada motivo de viver, tudo representado num momento fixo do tempo. e lá se foram todos os detalhes de 70 mil vidas pela razão equivalente de apenas um punhado de interesses politicos: a complexidade da estória toda mora aí.

    complexidade, ahhh! a complexidade! já tem um tempo que eu venho notando um fato pitoresco na minha vida - ou na vida dos outros, você decide: (quase) todas as pessoas que me cercam, de certa forma, sibilam entre a genialidade e algum disturbio emocional ou mental. a escolha é minha, óbvio, mas as caracteristicas são marcantes: manias, paranóia, TOC, depressão, sindrome do pânico: parece que é uma REGRA contra a vida comum, contra a vida ordinária: se quer ir contra a maré, ok!... mas não vai sair ileso!! essa é a condição. essa é a lei gravitacional. é o preço que se paga por ser diferente. é a controversia da vida social instituida. é o reverso do conformismo estipulado.

    eu me firmei, com auto-votação unanime, entenda, como integrante de uma geração inteira que PRECISA de um disturbio pra poder viver na sociedade EM PAZ consigo mesmo. é inevitável e faz parte de todo um ciclo de evolução involuntária, o mesmo ciclo iniciado há seculos atrás, por Galeno, procurando uma "alma orgânica" no que ele inconscientemente chamou de Retemirabile; uma idéia que mais tarde foi depurada por Descartes, depois exaltada por Nietsche, depois decomposta por Dostoyevski, depois desmistificada por Sartre... e depois massificada, estereotipada e banalizada por... nós!, a massa moderna que PENSA que sabe tudo.

    eu faço parte disso. veja bem: hoje pensei muito sobre cada motivo que me leva a tomar cada decisão do dia-a-dia. pensei sobre cada decisão tomada e sobre cada consequência exercida por essas pequenas decisões. pensei muito, mas muito mesmo, sobre a idéia formada que tenho sobre o mundo em que vivo, de como ele foi um dia, e sobre como ele poderá vir a ser, num futuro incerto. pensei também sobre o que o cara que voava no Enola Gay sentiu quando soltou a bomba sobre Hiroshima. e pra variar, eu sempre penso em filmes: pensei num filme que eu vi, um tempo atrás, na tv mesmo, chamado In the Edge, que conta a estória de um cara que rouba um carro e se joga de um precipicio com ele, basicamente pra "ver qual é", e mais tarde, sendo forçado a integrar um "grupo terapeutico de suicidas", percebe o que rola de verdade - DE VERDADE - nesse mundo: em SEU mundo, no mundo que ele inevitavelmente foi inserido. o resultado é triste, mas é, como a proposta mesmo diz, inevitável. porém ainda é esperançosamente reversível.

    me peguei, enfim, pensando que todos estamos sujeitos à essa intempérie da evolução. eu, que perco meu tempo falando sobre o que não sei direito. você, que ocasionalmente perdeu seu tempo lendo isso. ele, que teve o impulso de cometer o que teve vontade.
    e no fim, não tive coragem de recriminar ninguém. afinal, quem foi Galeno? quem foi Descartes? quem foi Nietsche, Froyd, Hesse, Sartre?... ora! quem sou EU, pra julgar os motivos de cada um?...


    (in memorian ao bom amigo Marco "jegão")

    5 coffee junkies:

    1. Marcelo Mayer disse...
    2. boa idéia ter lembrado do in the edge. farei joguinhos com as pessoas e perceber qualé que é. se realmente vale a pena e ta valendo a pena para quem faz isso. sentir a sensação de impor certas regras e rir de tudo depois.

      bom, me vi perdendo meu tempo lendo este texto. e confesso que é dificil de entender. isso é ótimo porque daqui há 10 anos posso ler ele novamente e enxergar tudo diferente.

      E se a dificuldade de entender certas coisas me faz pensar o quanto somos ignorantes, de verdade, por querer acreditar no nosso semelhante cada dia mais.

      nem eu mais sei oq to escrevendo aqui. culpa sua, e culpa de nós porque viver hj em dia as vezes é constrangedor. e vc mostrou no texto que é mesmo.

      7 de agosto de 2009 05:36
    3. Canto da Boca disse...
    4. kkkkkkkkkk, desculpa aí, entrar assim já fazendo um estardalhaço sonoro com a minha alta gargalhada, dizem que boas moças não podem rir alto, mas eu tenho um álibi, se chama o último parágrafo do cometário do Marcelo Mayer, e também que não sou uma boa moça, logo não me encaxei nessa categoria, enfim...

      Mas confesso que a leitura do seu texto, é reflexiva, instigante, aliciadora e provocativa, e cativa e ativa, e deixa-nos um tanto desnorteados com a sua tamanha lucidez quando aqui enfia o dedo na "ferida intelectual e social" (hunrum, inspirada no post do Marcelo, que agora inventaram aí no Brasil, uma tal de droga social, e eu só fui saber disso, hoje, é viver "away" do país, dá nisso, as coisas acontecem e você é sempre a última a saber, que nem a já manjada traição). E me pergunto como tu te perguntaste a ti: quem foram (e quem são) mesmo aqueles pensadores, contestadores, escritores, degoladores da condiçao humana, que ousaram dizer que somos, humanos?
      E para piorar a minha situação diante das categorias que tu expuseste acima, me sinto uma excluída, uma com "pobrema", porque a única mania que tenho, é a de não ter manina nenhuma e nem tenho nada daquilo lá, aquelas cousas de pós-modernidade, será que eu tenho salvação?
      E sou viciada em café preto e sem açúcar e ou adoçante, agora vou ter mais um vício, vir fazer ponto aqui nesse wash.ponto.café.

      Abraço e boas prosas.
      ;)

      7 de agosto de 2009 09:32
    5. mandiócrates disse...
    6. Muito bom, Wash. Também me peguei pensando um monte ontem, ensaiei e as músicas pareciam fazer outro sentido, pareciam sair de dentro de mim, era triste e gostoso ao mesmo tempo.

      E eu nem era amigo mesmo do Jegão, só conhecido. Mas a notícia do que aconteceu mexeu demais.

      Vou ler mais seu blog, aproveitando que ele abre aqui no trampo.

      Abraços

      7 de agosto de 2009 12:00
    7. Didiorock disse...
    8. Distúrbios eu tenho, pena que falta a genialidade.
      A cada dia, tudo fica ainda mais complicado, essa complexidade de nossa sociedade, ser normal deve se tornar cada vez mais raro. E como diabos se consegue ser normal vivendo neste mundo??
      Abraço!

      10 de agosto de 2009 15:11
    9. Topanga disse...
    10. Aee Wash....

      Aqui é o topanga, amigo do diego, nos trombamos na augusta....

      Digo que também sou um desses que penumbra entre os disturbios mentais e/ou emocionais....

      Mas penso de uma maneira um pouco diferente sobre o assunto:
      " Quem inventou esses problemas foi o próprio homem, porque temos que tentar normalizar as coisas??"
      " Só porque pensamos diferente, quer dizer que temos distúrbios??"

      A vida é muito mais que isso, porque eu tenho que aceitar alguém tentando me enquadrar num padrão??

      Ta certo que se for a um psicólogo não tenho alta em menos de uns 10 anos...... hehehehe

      Muito bom seu blog.... a partir de agora sou seguidor... abraçosss

      26 de agosto de 2009 11:23