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sobre uma noite na Vila Mimosa

  • terça-feira, 22 de julho de 2008
  • Wash.
  • pessoas passam por experiências na vida que, com certeza, deveriam ser registradas para a posteridade. ter um ataque do coração, por exemplo. ou pegar uma onda de 50 pés. trombar um urso marrom numa floresta e sair ileso pra contar a estória. ou quem sabe presenciar uma chuva de sapos... bem, eu tenho uma experiência de vida pra esse devido registro: um passeio noturno pela Vila Mimosa.

    em 2005 fui ao saudoso Rio de Janeiro pra dois showzinhos intimistas, que ficou algo entre amigos, basicamente. um dos shows miou e acabou rolando um só, e o dia seguinte foi pura diversão de turista-nerd-branquelo-que-nunca-sai-de-sãopaulo; tudo bem que não foi as mil maravilhas: tava um calor insano que eu nunca havia passado antes, de 41 graus marcados no termômetro da praia, e o Podrinho derrubou um coco verde em cima do meu dedinho do pé, esmagando o pobrezinho... mas fora isso foi bom!...

    anyway, na noite do show nos dirigimos ao local e passamos o som, assim bem urgente e homogêneo, e pronto, ficamos de bobeira do lado de fora, esperando o início dos shows da noite e observando o movimento de pessoas vestidas com camisetas pretas e calças grossas e sobretudo e coturnos em plenos 37 graus que a noite fazia... e tentando entender se aquilo fazia sentido. foi quando nosso ilustre impagável amigo Luis Menezes, nosso cicerone oficial das belezas e presepadas da Cidade Maravilhosa, teve uma idéia sensacional: "ei... quero levar vocês num lugar boladasso! é aqui do lado, 3 quadras daqui, sacoé??... vamo na Vila Mimosa", ele disse no seu carioquês fluente. "já ouviram falar?"; eu já tinha visto uma reportagem num programa que chamava "Documento Especial", uma espécie de Globo Repórter trash que passava na extinta rede Manchete, quais os temas recorrentes sempre envolviam putaria, brigas de traveco, voodoo, bizarrices, coisas escrotas e afins; coisas que jovens pré-internet como eu adorava ver na tv no começo dos anos 90. a matéria apresentava a Vila Mimosa, um vilarejo incrustado a caminho da zona norte do Rio, próximo à Praça da Bandeira, que abriga provavelmente a maior quantidade de prostitutas por metro quadrado no mundo. parece que o lugar existe a 80 anos e, por problemas relativos óbvios, já mudou de lugar duas vezes até encontrar seu destino atual ali, a 4 quadras de onde estavamos.

    "bora pra lá!", topei na hora com o Menezes. o pessoal todo também se empolgou e vamo que vamo, em direção ao sensacional shopping de putas. uma quadra antes de chegar, o Menezes parou e virou pra gente. "perae. é o seguinte: o lugar tem regras próprias e é melhor eu explicar pra vocês antes da gente passar daqueles portões (não sei porque mas na hora me veio a Divina Comédia na cabeça...) porque passou dali, nem a policia manda: eles só vem pra buscar o corpo estendido no chão...; procurem não embaçar em mulher que já estiver acompanhada. tentem não esbarrar nem pisar no pé de ninguém. procurem não deixar nenhuma delas nervosa, porque rola uns seguranças locais. e garotas: melhor vocês não entrarem, porque a probabilidade de confusão DOBRA" - e o coro das garotas foi de decepção - ...senhores: comtemplem a VILA MIMOSA!!!

    tenho que dizer que não foi a mesma impressão de curiosidade que me abateu quando vi o documentário. foi diferente. foi MUITO MAIS intenso. foi um misto de contemplação com um certo receio, um medo profundo contido com espanto pelo absurdo da situação. confesso sim que fiquei com medo pela inospitalidade do território. parecia que as pessoas farejavam com seus narizes que não eramos dali!!; mas isso foi por um momento breve de adaptação e de repente estavamos perambulando por entre as vielas avermelhadas pelas luzes dos puteiros, empencada de gente que cheirava a graxa e álcool, de suor forte e frontes oleosas. seguiamos o fluxo das pessoas, com aquele puta receio de que na próxima curva das vielas fosse um beco sem saida, ou uma emboscada sinistra. mas não, era só uma impressão estranha, pois todas as vielas se entrelaçavam. com o tempo fui sentindo até que o ar de cada puteirinho era convidativo, afinal essa era a intenção: convidar!

    aos pés de portas vermelhas ostentavam-se mulheres seminuas, vestidas por micro-shorts e tops, as vezes uma alegoria de carnaval, um tapa-sexo, as vezes sem a parte de cima; a cada sobradinho de cada viela uma surpresa qualquer, mesas de bilhar, mulheres corpulentas sentadas uma sobre as outras; passamos por uma grade que expunha 3 garotas com as pernas escancaradas para os transeuntes, e sobre elas pendia uma placa com os dizeres "$1 REAL A DEDADA"... só imagino quantas mãos mal-lavadas ao dia passavam por aquelas... não. melhor não imaginar. eu era nesse dia um típico turista gringo: vestia uma camisa havaiana florida, bermuda estilo US ARMY, chinelos de dedo e um boné de baseball. o Menezes olhou pra mim e disse "vamos curtir um pouco: finje que tu é gringo e começa a falar em inglês..." entrei na onda e comecei a balbuciar palavras em inglês, pra não ficar muito óbvio meu fingimento, e algumas mulheres já se interessavam de forma diferente perguntando pra ele se eu não queria dar uma provinha do material em troca de uns miseros niqueis, se quisesse nem precisava pagar!!: a cara era, lógico, arrumar um gringo endinheirado e sair daquele lugar, quem não queria???

    enfim, isso se passou em 20 minutos. óbviamente tudo ficou só nas risadas e na impressão de algo dantesco presenciado; não nos aprofundamos em nenhuma dona, claro. nossas namoradas nos esperavam do lado de fora do portão, um show nos aguardava em poucos minutos e, o mais importante e transparente, ninguém ali tava afim de voltar pra casa com uma facada no bucho ou, numa hipótese pior ainda, uma doença sexualmente transmissivel mortal no coro. de qualquer forma foi uma experiencia visual incrivel. mais tarde um gringo que nos acompanhava no dia também se aventurou a conhecer a famigerada vilinha, e a cara que ele voltou de lá foi impagável, aquela cara de "não acredito que aquilo que eu vi existe mesmo". o resto da noite não teria sido igual sem aquele passeio. obrigado Menezes.

    2 coffee junkies:

    1. Menezes, o cretino disse...
    2. O prazer foi todo meu, Bebaça! Sempre bom apresentar os camaradas às delícias felinnianas do Rio de Janeiro.

      18 de agosto de 2008 18:54
    3. ­ disse...
    4. http://www.youtube.com/watch?v=_cUHeXSuVkU

      21 de abril de 2010 22:43