me acorde antes que eu adormeça
antes que eu perca a parte importante da estória
antes que eu não saiba continuar de onde ela parou
que tudo o que foi dito antes seja desmentido
seja desmedido, descabido
desproporcional em relação ao real
e inevitável
me acorde antes que eu adormeça
antes que eu seja o que nunca fui
antes que eu comece a agir como nunca agi
e que eu me vicie nessa droga que me guia
pelo caminho errado
apesar de ter o caminho certo bem à minha frente
bem claro, com placa indicando "POR AQUI"
me acorde antes que eu adormeça
antes que eu pegue no sono
aquele sono zumbificado
aquele que se sente levitar e de repente cair
e se a queda for bem maior do que parecia
me acorde antes de chegar ao chão
antes de atingir com a cara no concreto
me acorde antes que eu adormeça
antes que me faça parar de respirar
com o peso dos poltergeists sentados sobre meu peito
me acorde antes que atinja essa situação que cria
uma disposição mental para ataques de panico
me acorde dum pulo sobre meu barco
e nessa hora eu serei Ahab contra a grande baleia branca
e foi então que ela me acordou
e foi só então que o sono veio
e tive que desistir do dia.
uma cochilada urgente, apressada
com os olhos entreabertos
e estaria preparado para meu destino
com todo aquele gelo lá fora, à minha espera.
hmm... acho que vou transformar isso numa letra de música, ou coisa parecida...
sobre a boa e velha irresponsabilidade.
de um modo geral, a musica do Nirvana foi feita pra quem tem merda na cabeça. uhum! e ao contrario do que possa parecer, isso não é uma ofensa pra quem gosta de Nirvana e você vai entender do que estou falando.
veja bem: não sei como essas coisas acontecem, sinceramente eu ainda não saquei como a massa cinzenta funciona; às vezes a gente tá com a cabeça limpa dos problemas e correrias e dá lugar pra descanso, essas coisas, sudoku, cavaleiros que dizem NI, receitas de caipirinha, Bob Esponja, movimentação membranosa dos ligamentos do joelho de um cavalo, o diabo!... e lembranças. e dai bem nessa hora tava passando um vídeo do Nirvana, aquele da musica Sliver, você deve saber qual. e de repente me lembrei de como é a cabeça de um garoto de 17 anos que não tem nada importante pra pensar a não ser em garotas e guitarras e carros, e baladas e festas e butecos, e ir pra escola, o que não causa esforço nenhum já que voce sabe o que fazer na escola e ainda vai encontrar os camaradas e as garotas por lá. e liberdade plena, a primeira que se sente, a de pensar livre, sem ninguém no controle além de voce mesmo. e sentir o poder nas mãos, e o poder que te dá um som assim, o que vc sentiu as primeiras vezes que vc ouviu esse som; então você vê que, 17 anos depois dos 17anos, muita coisa muda.
a unica coisa negativa desse aspecto todo é que o tempo vai ficando cada vez mais escasso, só preocupações e contas e correria. e esse tipo de pensamento, de lembrança, vai ficando cada dia mais distante da sua vida real e atual. ou não. talvez uma hora essas lembranças estarão se aproximando da vida de novo. talvez quando eu for um velho cagalhão de frauda geriátrica, sem cabelos e sem dentes pra me preocupar, alzheimer surgindo ali na próxima esquina quando você se perde na quadra da sua casa, e então, só então, minha cabeça volte a se preocupar com os acordes de Sliver de novo, e talvez fazer esse som ficar importante, ressonante e poderoso no meu peito de novo.
e em pleno dia do orgulho nerd, veja você, quem tá certo é o Milo Aukerman cantando "i don't wanna grow up".
veja bem: não sei como essas coisas acontecem, sinceramente eu ainda não saquei como a massa cinzenta funciona; às vezes a gente tá com a cabeça limpa dos problemas e correrias e dá lugar pra descanso, essas coisas, sudoku, cavaleiros que dizem NI, receitas de caipirinha, Bob Esponja, movimentação membranosa dos ligamentos do joelho de um cavalo, o diabo!... e lembranças. e dai bem nessa hora tava passando um vídeo do Nirvana, aquele da musica Sliver, você deve saber qual. e de repente me lembrei de como é a cabeça de um garoto de 17 anos que não tem nada importante pra pensar a não ser em garotas e guitarras e carros, e baladas e festas e butecos, e ir pra escola, o que não causa esforço nenhum já que voce sabe o que fazer na escola e ainda vai encontrar os camaradas e as garotas por lá. e liberdade plena, a primeira que se sente, a de pensar livre, sem ninguém no controle além de voce mesmo. e sentir o poder nas mãos, e o poder que te dá um som assim, o que vc sentiu as primeiras vezes que vc ouviu esse som; então você vê que, 17 anos depois dos 17anos, muita coisa muda.
a unica coisa negativa desse aspecto todo é que o tempo vai ficando cada vez mais escasso, só preocupações e contas e correria. e esse tipo de pensamento, de lembrança, vai ficando cada dia mais distante da sua vida real e atual. ou não. talvez uma hora essas lembranças estarão se aproximando da vida de novo. talvez quando eu for um velho cagalhão de frauda geriátrica, sem cabelos e sem dentes pra me preocupar, alzheimer surgindo ali na próxima esquina quando você se perde na quadra da sua casa, e então, só então, minha cabeça volte a se preocupar com os acordes de Sliver de novo, e talvez fazer esse som ficar importante, ressonante e poderoso no meu peito de novo.
e em pleno dia do orgulho nerd, veja você, quem tá certo é o Milo Aukerman cantando "i don't wanna grow up".
Top 5 Albuns, parte 3 (bônus)
complementando o post anterior, tem essa estorinha incrivel sobre a versão do Steve Albini pra esse cd, In On the Killtaker, que é assim: o Albini, da banda Shellac, é exemplar engenheiro de estudio que ainda hoje usa técnicas rudimentares pra extrair o som mais cru e poderoso de uma banda, além do seu já renomado mau humor e acidez ao atacar bandas que nós, reles mortais, julgamos divinas; entre elas, ele metia o pau no Fugazi, dizendo que eram uma ótima banda no palco, mas seus discos eram uma merda desperdiçada; na época da entrevista Albini deixou claro que era sua vontade produzir um disco do Fugazi.
e de fato esse evento aconteceu. logo após tal entrevista de Albini, MacKaye e seus companheiros se propuseram a "testar" o poderio de fogo do astuto nerd de estudio: foram pra Chicago gravar uma demo com as novas músicas, o que viria a ser o In On the Killtaker. ouviram suas opiniões, gravaram, mixaram. e no caminho de volta para Washington, ouvindo o cd na van, desistiram da idéia: chegando em casa regravaram tudo de novo com Ted Niceley, seu produtor de costume. as más linguas disseram que eles "jogaram" o cd pela janela da van, na volta pra casa. mas essa parte era mentira, porque anos depois o cd apareceu em sites de peer-to-peer de mp3. e pra quem ficou curioso pra ouvir essa versão albinesca do Killtaker, taí de presente:
e de fato esse evento aconteceu. logo após tal entrevista de Albini, MacKaye e seus companheiros se propuseram a "testar" o poderio de fogo do astuto nerd de estudio: foram pra Chicago gravar uma demo com as novas músicas, o que viria a ser o In On the Killtaker. ouviram suas opiniões, gravaram, mixaram. e no caminho de volta para Washington, ouvindo o cd na van, desistiram da idéia: chegando em casa regravaram tudo de novo com Ted Niceley, seu produtor de costume. as más linguas disseram que eles "jogaram" o cd pela janela da van, na volta pra casa. mas essa parte era mentira, porque anos depois o cd apareceu em sites de peer-to-peer de mp3. e pra quem ficou curioso pra ouvir essa versão albinesca do Killtaker, taí de presente:
não sei. talvez porque a produção da demo do Albini não foi terminada, mas pessoalmente eu prefiro a versão Ted Niceley, a do cd mesmo: com muitos detalhes notáveis, o som mais limpo, com algo de etéreo em algumas partes dos vocais provocados pela dobra infestada de reverb, os caóticos prolongamentos finais de 23 Beats Off; o fato é que Albini tentou arrancar um som bruto, seco e violento, com a cara das bandas de Chicago caracteristicas nos selos Touch and Go e Amphetamine Reptile como o Slint, o Tar, o Jesus Lizard e o Trenchmouth; isso não é a cara do Fugazi. já uma outra banda de Washington, o Jawbox pegou a essência do Fugazi e mixou com a crueza e a síncope dodecafônica das bandas de Chicago, e teve resultado primordial... mas isso já é outra estória.
Top 5 Albuns "Fuckin' Ever", parte 3
parte 3: Fugazi - In On the Kiltaker


posso dizer que confundo Fugazi com a minha própria estória dentro do que engloba o punk e o hardcore; assim como outras boas bandas, o Fugazi me chegou por programas de radio bem especificos no começo dos anos 90, quando se tinha o habito de encontrar coisa boa numa dial, como eu já disse em algum texto aqui antes. bastaram algumas faixas do Repeater, na época de seu lançamento, e essas musicas mudaram definitivamente TODOS os meus pontos de vista dentro do rock; até então nunca havia ouvido algo tão genial, pelo menos na minha compreensão de genialidade musical, que unisse o criativo, o harmonizado e o visceral numa unica banda. creio que muita gente aqui pode compreender perfeitamente sobre o que eu falo, enfim. de qualquer forma, é dificil pra mim falar racionalmente sobre fugazi sem deixar aparentar toda minha admiração pelo que esses caras fizeram, principalmente pela contribuição que deram na sonorização do que viria a ser o punk inteligente dos anos 90 em diante, isso sem falar no aspecto "politizado" que eles tambem inseriram: tiraram um pouco da irresponsabilidade cretina que pairava feito névoa sobre o rock, e sobrava no punk, pra dar lugar à sobriedade de se fazer musica inteligente nas harmonias, nas letras metaforicas e subjetivas, e na raiva que transpunha incontida no poder da voz e na distorção da guitarra, alem de vender a musica de uma forma global e pela primeira vez REALMENTE independente, o que foi de fato inovador dentro do mercado mainstream fonografico, e genial dentro do mercado paralelo indie; arrisco a dizer que se não fosse pelo empurrão inicial do Fugazi e da Dischord, muita coisa do que temos facilidade (mercadologicamente falando) hoje ainda não seria possivel.
mas não é pra isso que eu quero falar de fugazi: é sobre a genialidade musical de MacKaye e Picciotto, e porque não dizer os Lennon e MacCartney do post-hardcore!...
anyway, acompanhei o Fugazi no inicio do seu despertar como banda inovadora, no Repeater. posteriormente procurei o que mais eles tinham feito, e descobri o 13 Songs, que unia os dois primeiros EPs. achei incrivelmente sagaz, linhas de baixo e bateria incriveis, frases de guitarra marcantes, um encontro do punk e o melhor que a musica pop podia proporcionar. mas ainda o Repeater era um passo a frente. no Repeater eles conseguiam enfiar no combo, além do punk e do pop, boas doses de reggae e jazz nas levadas, entremeio de guitarras caóticas thurstonianas e as vezes secas como Gang of Four. a massa tava pronta: só bastou pros caras modelarem o que tinham criado. e a cada disco, se notava um passo a frente.
o proximo foi Steady Diet of Nothing. continuava a ascensão de criatividade, com guitarras mas sincopadas e menos poderosas, marcando tempo, e baixo e bateria guiando as direções principais. alias isso faz o Fugazi um grupo genial também porque deixa cada membro da banda solto, dá liberdade pra qualquer um dos quatro CRIAR a direção desejada, e não exatamente as guitarras ou a voz.
então eu estava com um grupo de amigos quando um deles chegou dizendo que tinha pedido pelo correio o Steady Diet e mandaram em vez disso um novo, inedito, saido do forno aquele momento: o disco se chamava In On the Killtaker. quando peguei meu exemplar e coloquei pra tocar, a primeira faixa revelava ter O RIFF DE GUITARRA MAIS PODEROSO já feito, aqueles que vão enchendo seus ouvidos e serrando seus punhos, aqueles que te dão uma vontade de sair quebrando tudo que se vê pelo caminho, na sua ira teenager sem causa exata. Facet Squared é o som que define a minha geração: urgente e desnorteada, usa o velho pra fazer o moderno, usa a raiva pra fazer funcionar a cabeça.
as 11 musicas em sequência vão destruindo qualquer possibilidade de resposta antecipada, de pensar que o que vêm em seguida voce já ouviu antes, e de pensar que a sua banda pode fazer melhor. porque não pode. a urgência de musicas como Public Witness Program , Smallpox Champion e Great Cop não te dão tempo de pensar no que aconteceu: são rolos compressores feitos de camadas de guitarra e bateria e berros e palavras que chocam. é a partir desse disco também que o Fugazi começa a demonstrar mais semelhanças com bandas noise experimental, como o Sonic Youth. os timbres de guitarra de Rend it, 23 Beats Off e Walken's Syndrome são muito tensos e desfocados, exatamente como os novaiorquinos citados adoram fazer.
os detalhes e ruidos são trabalhados de forma primorosa, a modo de fazer sentido a cada inserção, a cada pausa, em Cassavetes (homenagem ao grande diretor, quem vem da mesma escola ideológica anti-mainstream) e na obra prima Instrument. enfim o disco é fechado com uma das mais belas canções que o quarteto já criou: Last Chance for a Slow Dance, com uma guitarra ciclica eterna e um baixo que molda as oito frações rodopiantes de cada refrão; eu adorava ouvir essa musica num velho aparelho que eu tinha, que simulava um karaokê, mas na verdade ele decompunha o canal da voz no cd. e acho que essa musica foi gravada com um segundo vocal colado, com muito reverb, e que o aparelho não distinguia.. então o efeito de que o Piccioto estava num banheiro a dezenas de metros distantes soava incrivelmente maravilhoso.
depois desse disco, o Fugazi continuou inovando, se superando. mudando pontos de vista dentro do rock. Red Medicine, End Hits e Argument são uma sucessão de progressões do estagio avançado do punk rock, em harmonias e ideias: é o que o free jazz representou para o ragtime no jazz. Mas In On the Killtaker ainda é insuperável pra mim: ele definiu o perfil que eu queria seguir como musico e compositor, algo que com o tempo mudou um pouco e continua, mas ainda assim esse disco é o meu alicerce se tratando de inovar a música sem perder o fio da meada do punk hardcore.
thanks aos rapazes e garotas do blog Less Talk, More Rock, de onde eu "roubei" o link, e de onde tem muito mais além desse que vos trago. enjoy.
mas não é pra isso que eu quero falar de fugazi: é sobre a genialidade musical de MacKaye e Picciotto, e porque não dizer os Lennon e MacCartney do post-hardcore!...
anyway, acompanhei o Fugazi no inicio do seu despertar como banda inovadora, no Repeater. posteriormente procurei o que mais eles tinham feito, e descobri o 13 Songs, que unia os dois primeiros EPs. achei incrivelmente sagaz, linhas de baixo e bateria incriveis, frases de guitarra marcantes, um encontro do punk e o melhor que a musica pop podia proporcionar. mas ainda o Repeater era um passo a frente. no Repeater eles conseguiam enfiar no combo, além do punk e do pop, boas doses de reggae e jazz nas levadas, entremeio de guitarras caóticas thurstonianas e as vezes secas como Gang of Four. a massa tava pronta: só bastou pros caras modelarem o que tinham criado. e a cada disco, se notava um passo a frente.
o proximo foi Steady Diet of Nothing. continuava a ascensão de criatividade, com guitarras mas sincopadas e menos poderosas, marcando tempo, e baixo e bateria guiando as direções principais. alias isso faz o Fugazi um grupo genial também porque deixa cada membro da banda solto, dá liberdade pra qualquer um dos quatro CRIAR a direção desejada, e não exatamente as guitarras ou a voz.
então eu estava com um grupo de amigos quando um deles chegou dizendo que tinha pedido pelo correio o Steady Diet e mandaram em vez disso um novo, inedito, saido do forno aquele momento: o disco se chamava In On the Killtaker. quando peguei meu exemplar e coloquei pra tocar, a primeira faixa revelava ter O RIFF DE GUITARRA MAIS PODEROSO já feito, aqueles que vão enchendo seus ouvidos e serrando seus punhos, aqueles que te dão uma vontade de sair quebrando tudo que se vê pelo caminho, na sua ira teenager sem causa exata. Facet Squared é o som que define a minha geração: urgente e desnorteada, usa o velho pra fazer o moderno, usa a raiva pra fazer funcionar a cabeça.
as 11 musicas em sequência vão destruindo qualquer possibilidade de resposta antecipada, de pensar que o que vêm em seguida voce já ouviu antes, e de pensar que a sua banda pode fazer melhor. porque não pode. a urgência de musicas como Public Witness Program , Smallpox Champion e Great Cop não te dão tempo de pensar no que aconteceu: são rolos compressores feitos de camadas de guitarra e bateria e berros e palavras que chocam. é a partir desse disco também que o Fugazi começa a demonstrar mais semelhanças com bandas noise experimental, como o Sonic Youth. os timbres de guitarra de Rend it, 23 Beats Off e Walken's Syndrome são muito tensos e desfocados, exatamente como os novaiorquinos citados adoram fazer.
os detalhes e ruidos são trabalhados de forma primorosa, a modo de fazer sentido a cada inserção, a cada pausa, em Cassavetes (homenagem ao grande diretor, quem vem da mesma escola ideológica anti-mainstream) e na obra prima Instrument. enfim o disco é fechado com uma das mais belas canções que o quarteto já criou: Last Chance for a Slow Dance, com uma guitarra ciclica eterna e um baixo que molda as oito frações rodopiantes de cada refrão; eu adorava ouvir essa musica num velho aparelho que eu tinha, que simulava um karaokê, mas na verdade ele decompunha o canal da voz no cd. e acho que essa musica foi gravada com um segundo vocal colado, com muito reverb, e que o aparelho não distinguia.. então o efeito de que o Piccioto estava num banheiro a dezenas de metros distantes soava incrivelmente maravilhoso.
depois desse disco, o Fugazi continuou inovando, se superando. mudando pontos de vista dentro do rock. Red Medicine, End Hits e Argument são uma sucessão de progressões do estagio avançado do punk rock, em harmonias e ideias: é o que o free jazz representou para o ragtime no jazz. Mas In On the Killtaker ainda é insuperável pra mim: ele definiu o perfil que eu queria seguir como musico e compositor, algo que com o tempo mudou um pouco e continua, mas ainda assim esse disco é o meu alicerce se tratando de inovar a música sem perder o fio da meada do punk hardcore.
thanks aos rapazes e garotas do blog Less Talk, More Rock, de onde eu "roubei" o link, e de onde tem muito mais além desse que vos trago. enjoy.
sobre piadas que só tem graça pra nerds...
tava fuçando numa montanha de lixos aqui que eu guardo, revirando uns papéis velhos, e encontrei um mail antigo enviado por um amigo. era uma piada culta, bem estilo humor ingles, Monty Python, daquelas que só nerds riem, sabe?: a piada é a mais sem graça do mundo - por que o frango atravessa a estrada? - respondida por personalidades históricas, filósofos, etc... bom, vou repostar ela aqui; é o tipo de piada que merece ser sempre repostada, não ficar perdida na imensidão do caos da internet pra sempre.
POR QUE O FRANGO CRUZOU A ESTRADA?
ARISTÓTELES: é da natureza dos frangos cruzar a estrada.
PLATÃO: porque procurava alcançar o bem.
NELSON RODRIGUES: porque viu sua cunhada, uma galinha de meia idade, sedutora, do outro lado da estrada.
MARX: o atual estagio das forças produtivas exigia uma nova classe de frangos, capazes de cruzar a estrada.
MAQUIAVEL: o frangou cruzou a estrada. a quem importa o porquê? estabelecido o fim de cruzar a estrada, é irrelevante discutir os meios que utilizou pra isso.
MOISES: uma voz vinda do céu bradou ao frango: "CRUZA A ESTRADA!" e o frango cruzou a estrada, e todos se regozijaram.
HIPÓCRATES: devido a um excesso de humores em seu pâncreas.
MARTIN LUTHER KING: eu tive um sonho. vi um mundo no qual todos os frangos serão livres para cruzar a estrada sem que sejam questionados seus motivos.
FREUD: a preocupação com o fato de o frango ter cruzado a estrada é um sintoma de sua insegurança sexual intimamente ligado à sua mãe...
DARWIN: ao longo de grandes períodos de tempo, os frangos tem sido selecionados naturalmente, de modo que, agora, eles tem uma predisposição genética a cruzar estradas.
EINSTEIN: o frango cruzou a estrada ou a estrada se moveu sob o frango? ...depende do ponto de vista. Tudo é relativo!
KANT: o frango seguiu apenas o imperativo categórico próprio dos frangos. é uma questão de razão prática.
ORWELL: para fugir da ditadura dos porcos.
HEMINGWAY: "to die. alone. in the rain."
SARTRE: trata-se de mera faticidade. a existência do frango está em sua liberdade de cruzar a estrada.
CHE: "hay que cruzar la carretera, pero sin jamás perder lá ternura."
PINOCHET: "el se fué... pero tengo muchos penachos de el en mi mano!..."
NIETZSCHE: ele deseja superar sua condição de frango, para tornar-se um superfrango.
BLAISE PASCAL: quem sabe? o coração do frango tem razões que a propria razão desconhece.
CLARICE LISPECTOR: a essencia do frango está nas suas patas. as patas têm o frango. quem vê as patas, vê o frango. a essencia das patas é correr, o correr abstrato. a estrada é a essencia de correr. quem vê o correr vê a estrada.
MACHADO DE ASSIS: quem sabe se o frango realmente cruzou a estrada, se era a sua intensão cruza-la? quem saberá, baseado naqueles olhos de frango dissimulado...?
SÓCRATES: tudo que sei é que nada sei.
PARMÊNIDES: o frango não atravessou a estrada porque não podia mover-se. o movimento não existe.
ESTÓICOS: o frango atravessou a estrada porque esse é um acontecimento necessário. é o destino: já estava previsto pela ordem universal do cosmos.
FILOSOFOS MEDIEVAIS: para responder a tal questão, devemos primeiro deliberar se a expressão "frango" é puro termo esvaziado de sentido ou se a palavra expressa a ideia genérica e universal de frango, ou ainda se no caso se trata de um frango concreto em particular.
FILOSOFOS DA ESCOLA DE FRANKFURT: é uma questão em que se manifesta o carater alienado da industria cultural, que tranformou a imagem do frango num mero produto para consumo em massa.
KATHLEEN HANNA E FEMINISTAS: para humilhar a franga, num gesto exibicionista tipicamente machista, tentando além disso convence-la que, enquanto franga, jamais terá habilidade suficiente para cruzar a estrada.
GILBERTO GIL: essa coisa de frango que atravessa algo nos remete à questão do almoço dominical que mainha me preparava na minha infância. tem algo a ver com a baianidade da menina malemolente atrás do frango. por outro lado essa coisa de estrada é de uma anterioridade que se firmou numa canção que fiz com o Caê, na casa de Pepeu, no Pelô...
CAETANO VELOSO: o frango é amaro, é lindo, uma coisa assim amara. ele atravessou, atravessa e atravessará a estrada porque Narciso, filho de Canô, quisera come-lo... ou não!
CARLINHOS BROWN: abluééé-skindô-skindô-ilayê-ubaba-bruitaquandôsindeayêêê.... POMBO.
LULA (FASE PRÉ-PRESIDÊNCIA): o frango estava fugindo porque o governo deixa o povo passar fome. o que o companheiro frango fez foi exercer o direito que todo cidadão tem de ir atrás da comida!
LULA (FASE GOVERNAMENTAL): quem disse que o frango estava fugindo? ninguem disse isso! o frango só estava fazendo a parte dele, como cidadão! não é necessario abrir nenhuma CPI pra isso!
JO SOARES: sem querer te interromper e já te interrompendo, você não acha que um frango ao molho pardo é uma delicia que engorda?
MALUF: não tenho nada a ver com isso, e não tenho nenhuma conta nas ilhas Cayman.
SURFISTA: o bicho atravessou, cara... foi pá-pum, e tava lá, do outro lado... bem assim, manja? bicho maneiro, velho, aí. demais, aí...
HEDONISTAS: é prazeroso ao frango atravessar estradas. o que voce acha, amigo?...
FUNCIONARIO PUBLICO: não sei, porque o chefe não tá aqui agora. mas o senhor preenche estes cinco formulários, duas vias do branco e tres do rosa, paga a taxa no Banco do Brasil e daqui a dois meses passa por aqui pra pegar a resposta...
POR QUE O FRANGO CRUZOU A ESTRADA?
ARISTÓTELES: é da natureza dos frangos cruzar a estrada.
PLATÃO: porque procurava alcançar o bem.
NELSON RODRIGUES: porque viu sua cunhada, uma galinha de meia idade, sedutora, do outro lado da estrada.
MARX: o atual estagio das forças produtivas exigia uma nova classe de frangos, capazes de cruzar a estrada.
MAQUIAVEL: o frangou cruzou a estrada. a quem importa o porquê? estabelecido o fim de cruzar a estrada, é irrelevante discutir os meios que utilizou pra isso.
MOISES: uma voz vinda do céu bradou ao frango: "CRUZA A ESTRADA!" e o frango cruzou a estrada, e todos se regozijaram.
HIPÓCRATES: devido a um excesso de humores em seu pâncreas.
MARTIN LUTHER KING: eu tive um sonho. vi um mundo no qual todos os frangos serão livres para cruzar a estrada sem que sejam questionados seus motivos.
FREUD: a preocupação com o fato de o frango ter cruzado a estrada é um sintoma de sua insegurança sexual intimamente ligado à sua mãe...
DARWIN: ao longo de grandes períodos de tempo, os frangos tem sido selecionados naturalmente, de modo que, agora, eles tem uma predisposição genética a cruzar estradas.
EINSTEIN: o frango cruzou a estrada ou a estrada se moveu sob o frango? ...depende do ponto de vista. Tudo é relativo!
KANT: o frango seguiu apenas o imperativo categórico próprio dos frangos. é uma questão de razão prática.
ORWELL: para fugir da ditadura dos porcos.
HEMINGWAY: "to die. alone. in the rain."
SARTRE: trata-se de mera faticidade. a existência do frango está em sua liberdade de cruzar a estrada.
CHE: "hay que cruzar la carretera, pero sin jamás perder lá ternura."
PINOCHET: "el se fué... pero tengo muchos penachos de el en mi mano!..."
NIETZSCHE: ele deseja superar sua condição de frango, para tornar-se um superfrango.
BLAISE PASCAL: quem sabe? o coração do frango tem razões que a propria razão desconhece.
CLARICE LISPECTOR: a essencia do frango está nas suas patas. as patas têm o frango. quem vê as patas, vê o frango. a essencia das patas é correr, o correr abstrato. a estrada é a essencia de correr. quem vê o correr vê a estrada.
MACHADO DE ASSIS: quem sabe se o frango realmente cruzou a estrada, se era a sua intensão cruza-la? quem saberá, baseado naqueles olhos de frango dissimulado...?
SÓCRATES: tudo que sei é que nada sei.
PARMÊNIDES: o frango não atravessou a estrada porque não podia mover-se. o movimento não existe.
ESTÓICOS: o frango atravessou a estrada porque esse é um acontecimento necessário. é o destino: já estava previsto pela ordem universal do cosmos.
FILOSOFOS MEDIEVAIS: para responder a tal questão, devemos primeiro deliberar se a expressão "frango" é puro termo esvaziado de sentido ou se a palavra expressa a ideia genérica e universal de frango, ou ainda se no caso se trata de um frango concreto em particular.
FILOSOFOS DA ESCOLA DE FRANKFURT: é uma questão em que se manifesta o carater alienado da industria cultural, que tranformou a imagem do frango num mero produto para consumo em massa.
KATHLEEN HANNA E FEMINISTAS: para humilhar a franga, num gesto exibicionista tipicamente machista, tentando além disso convence-la que, enquanto franga, jamais terá habilidade suficiente para cruzar a estrada.
GILBERTO GIL: essa coisa de frango que atravessa algo nos remete à questão do almoço dominical que mainha me preparava na minha infância. tem algo a ver com a baianidade da menina malemolente atrás do frango. por outro lado essa coisa de estrada é de uma anterioridade que se firmou numa canção que fiz com o Caê, na casa de Pepeu, no Pelô...
CAETANO VELOSO: o frango é amaro, é lindo, uma coisa assim amara. ele atravessou, atravessa e atravessará a estrada porque Narciso, filho de Canô, quisera come-lo... ou não!
CARLINHOS BROWN: abluééé-skindô-skindô-ilayê-ubaba-bruitaquandôsindeayêêê.... POMBO.
LULA (FASE PRÉ-PRESIDÊNCIA): o frango estava fugindo porque o governo deixa o povo passar fome. o que o companheiro frango fez foi exercer o direito que todo cidadão tem de ir atrás da comida!
LULA (FASE GOVERNAMENTAL): quem disse que o frango estava fugindo? ninguem disse isso! o frango só estava fazendo a parte dele, como cidadão! não é necessario abrir nenhuma CPI pra isso!
JO SOARES: sem querer te interromper e já te interrompendo, você não acha que um frango ao molho pardo é uma delicia que engorda?
MALUF: não tenho nada a ver com isso, e não tenho nenhuma conta nas ilhas Cayman.
SURFISTA: o bicho atravessou, cara... foi pá-pum, e tava lá, do outro lado... bem assim, manja? bicho maneiro, velho, aí. demais, aí...
HEDONISTAS: é prazeroso ao frango atravessar estradas. o que voce acha, amigo?...
FUNCIONARIO PUBLICO: não sei, porque o chefe não tá aqui agora. mas o senhor preenche estes cinco formulários, duas vias do branco e tres do rosa, paga a taxa no Banco do Brasil e daqui a dois meses passa por aqui pra pegar a resposta...
sobre o Coldplay aplicando a lei de Lavoisier
achei engraçada uma noticia que vi hoje:
"COLDPLAY ACUSADO DE PLAGIO PELA SEGUNDA VEZ DA MESMA MUSICA"
O músico Yusuf Islam , antes conhecido como Cat Stevens e que mudou seu nome quando se converteu ao islamismo, acusou a banda Coldplay de ter plagiado uma composição sua, "Foreigner Suite", para criar o hit "Viva la Vida", informou o site NME. O guitarrista Joe Satriani já havia acusado o grupo britânico plágio pela mesma canção. Ele apontou muitas semelhanças entre "Viva la Vida" e "If I Could Fly", de sua autoria.
do meu ponto de vista falando como musico amador que sou, eu diria: QUEM MANDA SER MUSICO MEDIOCRE que faz canção pop de quatro acordes mastigadissimos, do começo ao fim, alterando uma ou outra linha de voz só pra dar uma tapeadinha no corpo geral???... na boa, quando a banda já solta de cara, no primeiro cd, um puta hit pop como Yellow, ou ela já para por aí, ou ela vai ter que se mostrar de valor mesmo pra continuar compondo; inova, recria (não copia), inventa. se os caras se sentirem pressionados pra fazer mais hits, fudeu...
dai aparece uns caras que se acostumam a ganhar rios de dinheiro com musica, como esses aí, e ficam tentando emplacar qualquer porcaria só pra não ter que parar com certas mordomias a que estão acostumados. dá nisso: vira musico MEDIOCRE e compõe qualquer merda de quatro andamentos que se parece com qualquer coisa. e o problema nem é a limitação dos acordes, porque com menos que isso, com TRES acordes por musica, os Ramones fizeram uns 20 discos sem ninguem acusa-los de plagio, e ainda hoje são considerados originais as fuck e criadores de um estilo. chupa essa manga, coldplay...
sobre Ballard

Crash, de J. G. Ballard, não é um livro escrito por um pervertido sexual. Ballard desdobra o não-mocismo americano por meio de um grupo de pessoas aficcionadas em ossos quebrados, sangue, esperma e ferro retorcido, uma sociedade mutilada pela produção massificada e pelo caos do trafego descontrolado, sempre querendo atingir o climax da tecnologia numa ideia de sociedade robotizada sexualmente desumanizada.
exatos dez dias que eu postei isso no meu fotolog e o Ballard bateu as botas. cancer de prostata. o que prova que a mente de Ballard não era tão pervertida assim, a ponto de escrever os absurdos de Crash mas não querer levar uma dedada básica pra diagnosticar o maleficio...
exatos dez dias que eu postei isso no meu fotolog e o Ballard bateu as botas. cancer de prostata. o que prova que a mente de Ballard não era tão pervertida assim, a ponto de escrever os absurdos de Crash mas não querer levar uma dedada básica pra diagnosticar o maleficio...
esses dias atrás eu achei um conto da Clarisse Lispector que li ha alguns anos e que fazia tempo que não lia, e que me encantou de novo da mesma forma que me encantou da primeira vez que o li. Enfim, queria arrumar uma boa desculpa pra posta-lo aqui pra que as pessoas que fuçam aqui também pudesse le-lo, e queria dizer que é sobre a inveja, sobre egoismo, sobre uma certa maldadezinha infantil ou sobre vingança... mas pra que? nem tou interessado em passar nada disso pra ninguem, nem me sinto prejudicado por ninguem; a verdade é que o conto é bom, o jeito que ela escreve é muito convincente e detalhista e inspirador (a analise do texto poderia ser muito mais eloquente do que "convincente, detalhista e inspirador"... mas é melhor tirar suas proprias conclusões) e eu queria posta-lo aqui e pronto, só isso, fim de papo. taí o conto da Clarisse Lispector:
Felicidade Clandestina
Clarice Lispector
(O Primeiro Beijo
São Paulo, Ed. Ática, 1996)
Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme; enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.
Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como "data natalícia" e "saudade".
Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.
Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.
Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.
Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.
No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do "dia seguinte" com ela ia se repetir com meu coração batendo.
E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.
Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.
Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: "E você fica com o livro por quanto tempo quiser." Entendem? Valia mais do que me dar o livro: "pelo tempo que eu quisesse" é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.
Felicidade Clandestina
Clarice Lispector
(O Primeiro Beijo
São Paulo, Ed. Ática, 1996)
Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme; enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.
Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como "data natalícia" e "saudade".
Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.
Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.
Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.
Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.
No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do "dia seguinte" com ela ia se repetir com meu coração batendo.
E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.
Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.
Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: "E você fica com o livro por quanto tempo quiser." Entendem? Valia mais do que me dar o livro: "pelo tempo que eu quisesse" é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.
sobre o amigo iraniano
fui ver essa animação franco-hebraica chamada Valsa com Bashir, que trata a guerra do Libano de modo não subjetivo, mas talvez em segundo plano. falar a verdade não chega a ser em segundo plano, a guerra em si é de fato o plano principal do filme, claro, mas os personagens acabam chegando ao assunto de uma forma indireta, por meio de sonhos, bloqueios mentais e fatos de importancia pessoal ocorridos no periodo, mas que acabam se afunilando e dichavando um assunto em comum: a insanidade e o horror da guerra. o final em particular é um choque visual, quando a animação (teoricamente um mundo de fantasia) se torna imagem real de documentario, do mundo real e cruel. enfim, é fodástico. recomendo fudidamente.anyway, enquanto assistia o filme me lembrei do Ali. grande Ali. logo que cheguei ao Japão, em 1998, fui mandado pra um trampo numa cidade portuaria na provincia de Ibaraki. eu não sabia nada ainda sobre aquele país e não sabia falar japones e não sabia porra nenhuma, um porra de um cabaço perdido no meio de um lugar estranho sem saber de nada. me enfiaram num galpão que processava alimentos, mais especificamente de King Crabs, caranguejos gigantescos que chegavam embalados do Alaska e do Estreito de Behring, prontos para serem processados e comercializados por preços exorbitantes para o consumo diario dos japas. o detalhe era que não tinha NENHUM brasileiro na fabriqueta, só trabalhadores asiáticos, tailandeses, indonesios, filipinos, malaios. a maioria deles clandestinos. meu primeiro pensamento foi "me fodi lindo". mas no segundo dia apareceu um cara branco assim como eu, estatura mediana, com feiçoes caucasianas. "ué! tem brasileiro aqui nessa porra e ninguem me disse nada, cacete!!" foi o que eu pensei, e já fui seco rolando ideia com o cara em portugues, e o cara com uma puta cara de merda olhando pra mim sem entender nada: "where you're came from, man?" e nada de resposta. o cara me responde em japones. !!!. "que diabo... da onde esse cara veio? ele não é japa!" eu perguntei em ingles pros indonesios que eram um pouquinho mais espertos. "ele é iraniano" me respondeu o indonesio. iraniano. sem brincadeira, o cara lembrava um pouco o Mel Gibson! afora o topete, que só depois soube ser esse o corte de cabelo tipico dos jovens e homens iranianos, mas ele parecia o Mel Gibson. uma vez falei isso pra ele e ele ficou todo orgulhoso, me agradecendo. me disse que na verdade ele era diferente até entre os iranianos, que são mais morenos e de sobrancelhas grossas, porque seus pais eram do Uzbequistão, praticamente na Russia. outro fato que indicava ser de origem arabe eram suas calças jeans "baggy"; parece que o embargo americano fez com que os iranianos estacionassem nos anos 80, assim como os carros sexagenarios que circulam por Cuba até hoje. enfim, o cara era iraniano.
pior que pelo fato de sermos parecidos de alguma forma, a barreira da lingua não impediu que nos tornassemos bons amigos. ele me explicava pela "linguagem universal dos sinais" (...!) sobre o trabalho, a lingua e o modo de vida japones, e tambem o quanto ele odiava estar sozinho naquele lugar onde todo mundo tinha olho rasgado e a polidez sistemática japonesa. achava que só por eu ser fisicamente parecido com ele tinhamos algo em comum, e apesar de eu ser cristão (ou na teoria eu seria) ele poderia confiar em mim. mas com o tempo fui vendo como ele era diferente de mim, culturalmente falando: era um cara esperto, mas era muito machista e homofóbico; achava besteira o meu vegetarianismo mas não comia carne de porco porque Allah lançou no porco animal toda a impureza da humanidade; odiava tudo que lembrava America: "amerikan butá", ele se referia. porco americano, traduzido do japones. de certa forma não podia deixar de concordar, afinal a America fudeu com o país dele. era muito religioso: perdia 20 minutos do horario do almoço pra estender um pano no chão em direção Mecca, e rezar. acho que a segunda entre as 5 vezes ao dia que parava pra fazer isso. mas não usava o turbante islamico nem barba: "fundamentalistas eram uns imbecis", ele dizia. ele não entendia como eu conseguia sobreviver sem religião, que era a roda que movia a vida dele. eu respeitava muito a sua fé, e demonstrando meu interesse ele chegou a me mostrar alguns aspectos bonitos do Islamismo, coisa que aliás toda a religião tem, afora o fanatismo patológico. toda a religião tem a sua beleza, seu lirismo e encantamento. o que fode a religião são seus seguidores, enfim... vai entender! mas enfim, ao ver que não conseguiria me converter, só ficou nas explicações basicas mesmo. nem foi chato, foi instrutivo.
certa vez falando de guerras (Coreia do Norte havia lançado um missil em direção ao Japão e a porra do missil caiu no mar, os bichos nem sabem fazer uma merda de missil descente) e o Ali me contou que ele tinha servido ao Irã na guerra contra os vizinhos do Iraque. disse que ele era floricultor e foi convocado pro front. mas não entrou em detalhes: disse que não gostava de lembrar das coisas que ele viu na guerra, que era muita desgraça pra lembrança de uma vida só. disse também que os iraquianos de Saddam eram muito cruéis, muito mesmo, inclusive com mulheres e crianças. e só isso. nunca mais nem disse nada. eu ficava curioso em perguntar, mas ele não gostou de lembrar e eu nem toquei mais no assunto, enfim.
depois de seis meses em sua companhia, acabei tretando com o japa chefe e vazei pra outro canto do Japão. nunca mais vi o Ali, acho que nem me despedi dele. mandei alguns cartões postais, mas ele nem respondeu, talvez nem tenha os recebido. depois ainda passei mais dois anos e meio em terras niponicas, conheci peruanos, chineses, mais filipinos, e muitos, muitos brasileiros, pessoas otimas com estorias de vida interessantissimas. mas sempre lembro do Ali porque foi um cara diferente, com uma aura diferente, um cara complascente apesar de ter sido soldado na guerra do Irã-Iraque e ter visto coisas horriveis, desastres da guerra que modificam a personalidade das pessoas. e apesar de uma vidinha de merda que vivemos aqui, nem sabemos o que é viver na merda de verdade. todos os creditos ao jeito gente fina e "deixa disso, para com isso" brasileiro, sempre dando seus pulos: malandro sempre, mas treteiro jamais. assim que é.
apesar que existe o trafico, existe a policia e existe a pobreza. é uma guerra, não deixa de ser uma guerra. mas isso é outra estoria: não dá pra comparar treta de vizinho com bagunça dentro da propria casa...
sobre 3 dias em Amsterdamned.
(trecho extraido do diario da tour Europa 2005 Discarga / I Shot Cyrus)
Amsterdam, 17 de Outubro de 2005 - um pequeno resumo das últimas duas noites em Amsterdam. na primeira - domingo 16 de outubro - ja fomos levados de cara para a esbornia: a Red Light Area. indescritível: eu já vi o sobe e desce da Augusta pegando, nos meados dos anos 90; já vi a Vila Mimosa em seu esplendor aterrorizante; mas a Red Lights de Amsterdan é um bagulho hipnotizante, realmente indescritível: se sua alma inconscientemente tem uma tendencia para a vida mundana, fraquejar, pode se considerar pego: entre os pubs magnificos e fervilhantes e os "coffee-shops" aconchegantes, vitrines exibindo garotas lindas, garotas half-mouth, garotas horríveis, garotas que não são garotas. entremeio as vitrines, comboios de turistas de todas as idades permitidas, de 18 a 70, exploram os arredores como se o lugar fosse a Disneylandia, como se as prostitutas fossem produtos em vitrines de um shopping. um turismo confuso e surreal: num coffee-shop vimos pela vitrine uma comunidade de velhinhas turistas sexagenarias fumando uma tora inacreditável; sorriram pra nós e deram tchauzinho com o bei no meio dos dedos, e nós estarrecidos do lado de fora da vitrine. que estoria de glaucoma o que, cara!!... e bastou meia hora nesse padrão pra estarmos bem adaptados ao nicho, nos sentindo em casa! bem... EU estava me sentindo em casa: ainda no domingo eu e meu amigo Gui andamos por todo o centro. cafés bistro e coffee-shops, lojas de souvenires, bares de jazz, algumas lojas de disco... esse sim é um lugar do caralho! no terceiro dia em Amsterdam eu já sabia onde ficavam todos os lugares, de tanto que andei.
então essa noite eu tava na casa do Doidão; banho tomado e bem comido, resolvi dar uma volta por esse planeta convidativo chamado Amsterdam. I am sterdam. Amsterdamned. me myself and i, nem chamei ninguem. depois de andar e andar e andar, acabei sozinho aqui no pub San Francisco, um cafofo bukowskiano agradavel, tentando não ficar bebado o suficiente pra poder cuidar da minha própria segurança num pub cheio de chapados, traficantes e prostitutas. alguns são simpáticos e puxam conversa, mas não dou muita trela, só respondo. parecem simpaticos, mas nem dá pra confiar em ninguem aqui. me afasto do balcão pra uma mesa pequena, tentar escrever tranquilo, e uma puta senegalesa ou de algum canto da africa cola junto a mim. ela pede cigarro, mas não fumo nem tenho isqueiro, pensando que isso a manteria afastada. mas ela puxa assunto, pergunta de onde venho. o nome "Brasil" afeta as pessoas do resto do mundo de forma contagiante: todos gostam de conhecer brasileiros, não sei o que é isso!... ela me conta um pouco sobre o país dela, como as coisas são dificeis lá, do porque de estar ali trampando na Red Light, coisas assim. eu escuto com atenção, mas quando ela se oferece pra um programa eu desbaratino, digo que tou sem grana, qualquer coisa assim. mesmo assim ela é educada, se despede e vai pra outra mesa com maiores possibilidades de se dar bem...
a essa altura da madruga, o bar já se pondo a fechar, pago minha conta e volto pra casa do Doidão pra descansar um pouco pra jornada de amanhã. Ainda saindo do pub me arrisco a procurar outra coisa pra terminar a noite. Em vão: bora pra ferry-boat porque já são quase 5h e tá tudo fechado e eu bem bebado. mas são o suficiente pra não esquecer dos detalhes da noite magnetica de Amsterdam, das vielas, dos pubs, das vitrines, da perdição do sexo, alcool, comida e drogas: o cara tem que ser muito controlado pra não desistir de tudo e ficar por lá mesmo, jesus maria e josé!!
um dia taco fogo em tudo e venho de vez pra cá, godamned!!!...
Amsterdam, 17 de Outubro de 2005 - um pequeno resumo das últimas duas noites em Amsterdam. na primeira - domingo 16 de outubro - ja fomos levados de cara para a esbornia: a Red Light Area. indescritível: eu já vi o sobe e desce da Augusta pegando, nos meados dos anos 90; já vi a Vila Mimosa em seu esplendor aterrorizante; mas a Red Lights de Amsterdan é um bagulho hipnotizante, realmente indescritível: se sua alma inconscientemente tem uma tendencia para a vida mundana, fraquejar, pode se considerar pego: entre os pubs magnificos e fervilhantes e os "coffee-shops" aconchegantes, vitrines exibindo garotas lindas, garotas half-mouth, garotas horríveis, garotas que não são garotas. entremeio as vitrines, comboios de turistas de todas as idades permitidas, de 18 a 70, exploram os arredores como se o lugar fosse a Disneylandia, como se as prostitutas fossem produtos em vitrines de um shopping. um turismo confuso e surreal: num coffee-shop vimos pela vitrine uma comunidade de velhinhas turistas sexagenarias fumando uma tora inacreditável; sorriram pra nós e deram tchauzinho com o bei no meio dos dedos, e nós estarrecidos do lado de fora da vitrine. que estoria de glaucoma o que, cara!!... e bastou meia hora nesse padrão pra estarmos bem adaptados ao nicho, nos sentindo em casa! bem... EU estava me sentindo em casa: ainda no domingo eu e meu amigo Gui andamos por todo o centro. cafés bistro e coffee-shops, lojas de souvenires, bares de jazz, algumas lojas de disco... esse sim é um lugar do caralho! no terceiro dia em Amsterdam eu já sabia onde ficavam todos os lugares, de tanto que andei.
então essa noite eu tava na casa do Doidão; banho tomado e bem comido, resolvi dar uma volta por esse planeta convidativo chamado Amsterdam. I am sterdam. Amsterdamned. me myself and i, nem chamei ninguem. depois de andar e andar e andar, acabei sozinho aqui no pub San Francisco, um cafofo bukowskiano agradavel, tentando não ficar bebado o suficiente pra poder cuidar da minha própria segurança num pub cheio de chapados, traficantes e prostitutas. alguns são simpáticos e puxam conversa, mas não dou muita trela, só respondo. parecem simpaticos, mas nem dá pra confiar em ninguem aqui. me afasto do balcão pra uma mesa pequena, tentar escrever tranquilo, e uma puta senegalesa ou de algum canto da africa cola junto a mim. ela pede cigarro, mas não fumo nem tenho isqueiro, pensando que isso a manteria afastada. mas ela puxa assunto, pergunta de onde venho. o nome "Brasil" afeta as pessoas do resto do mundo de forma contagiante: todos gostam de conhecer brasileiros, não sei o que é isso!... ela me conta um pouco sobre o país dela, como as coisas são dificeis lá, do porque de estar ali trampando na Red Light, coisas assim. eu escuto com atenção, mas quando ela se oferece pra um programa eu desbaratino, digo que tou sem grana, qualquer coisa assim. mesmo assim ela é educada, se despede e vai pra outra mesa com maiores possibilidades de se dar bem...
a essa altura da madruga, o bar já se pondo a fechar, pago minha conta e volto pra casa do Doidão pra descansar um pouco pra jornada de amanhã. Ainda saindo do pub me arrisco a procurar outra coisa pra terminar a noite. Em vão: bora pra ferry-boat porque já são quase 5h e tá tudo fechado e eu bem bebado. mas são o suficiente pra não esquecer dos detalhes da noite magnetica de Amsterdam, das vielas, dos pubs, das vitrines, da perdição do sexo, alcool, comida e drogas: o cara tem que ser muito controlado pra não desistir de tudo e ficar por lá mesmo, jesus maria e josé!!
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