sobre Ballard

  • segunda-feira, 20 de abril de 2009
  • Wash.

  • Crash, de J. G. Ballard, não é um livro escrito por um pervertido sexual. Ballard desdobra o não-mocismo americano por meio de um grupo de pessoas aficcionadas em ossos quebrados, sangue, esperma e ferro retorcido, uma sociedade mutilada pela produção massificada e pelo caos do trafego descontrolado, sempre querendo atingir o climax da tecnologia numa ideia de sociedade robotizada sexualmente desumanizada.

    exatos dez dias que eu postei isso no meu fotolog e o Ballard bateu as botas. cancer de prostata. o que prova que a mente de Ballard não era tão pervertida assim, a ponto de escrever os absurdos de Crash mas não querer levar uma dedada básica pra diagnosticar o maleficio...
  • domingo, 19 de abril de 2009
  • Wash.
  • esses dias atrás eu achei um conto da Clarisse Lispector que li ha alguns anos e que fazia tempo que não lia, e que me encantou de novo da mesma forma que me encantou da primeira vez que o li. Enfim, queria arrumar uma boa desculpa pra posta-lo aqui pra que as pessoas que fuçam aqui também pudesse le-lo, e queria dizer que é sobre a inveja, sobre egoismo, sobre uma certa maldadezinha infantil ou sobre vingança... mas pra que? nem tou interessado em passar nada disso pra ninguem, nem me sinto prejudicado por ninguem; a verdade é que o conto é bom, o jeito que ela escreve é muito convincente e detalhista e inspirador (a analise do texto poderia ser muito mais eloquente do que "convincente, detalhista e inspirador"... mas é melhor tirar suas proprias conclusões) e eu queria posta-lo aqui e pronto, só isso, fim de papo. taí o conto da Clarisse Lispector:



    Felicidade Clandestina
    Clarice Lispector

    (O Primeiro Beijo
    São Paulo, Ed. Ática, 1996)


    Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme; enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.

    Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como "data natalícia" e "saudade".

    Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.

    Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.

    Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.

    Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.

    No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.

    Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do "dia seguinte" com ela ia se repetir com meu coração batendo.

    E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.

    Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.

    Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!

    E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: "E você fica com o livro por quanto tempo quiser." Entendem? Valia mais do que me dar o livro: "pelo tempo que eu quisesse" é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.

    Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.

    Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.

    Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.

    Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

    sobre o amigo iraniano

  • terça-feira, 7 de abril de 2009
  • Wash.
  • fui ver essa animação franco-hebraica chamada Valsa com Bashir, que trata a guerra do Libano de modo não subjetivo, mas talvez em segundo plano. falar a verdade não chega a ser em segundo plano, a guerra em si é de fato o plano principal do filme, claro, mas os personagens acabam chegando ao assunto de uma forma indireta, por meio de sonhos, bloqueios mentais e fatos de importancia pessoal ocorridos no periodo, mas que acabam se afunilando e dichavando um assunto em comum: a insanidade e o horror da guerra. o final em particular é um choque visual, quando a animação (teoricamente um mundo de fantasia) se torna imagem real de documentario, do mundo real e cruel. enfim, é fodástico. recomendo fudidamente.

    anyway, enquanto assistia o filme me lembrei do Ali. grande Ali. logo que cheguei ao Japão, em 1998, fui mandado pra um trampo numa cidade portuaria na provincia de Ibaraki. eu não sabia nada ainda sobre aquele país e não sabia falar japones e não sabia porra nenhuma, um porra de um cabaço perdido no meio de um lugar estranho sem saber de nada. me enfiaram num galpão que processava alimentos, mais especificamente de King Crabs, caranguejos gigantescos que chegavam embalados do Alaska e do Estreito de Behring, prontos para serem processados e comercializados por preços exorbitantes para o consumo diario dos japas. o detalhe era que não tinha NENHUM brasileiro na fabriqueta, só trabalhadores asiáticos, tailandeses, indonesios, filipinos, malaios. a maioria deles clandestinos. meu primeiro pensamento foi "me fodi lindo". mas no segundo dia apareceu um cara branco assim como eu, estatura mediana, com feiçoes caucasianas. "ué! tem brasileiro aqui nessa porra e ninguem me disse nada, cacete!!" foi o que eu pensei, e já fui seco rolando ideia com o cara em portugues, e o cara com uma puta cara de merda olhando pra mim sem entender nada: "where you're came from, man?" e nada de resposta. o cara me responde em japones. !!!. "que diabo... da onde esse cara veio? ele não é japa!" eu perguntei em ingles pros indonesios que eram um pouquinho mais espertos. "ele é iraniano" me respondeu o indonesio. iraniano. sem brincadeira, o cara lembrava um pouco o Mel Gibson! afora o topete, que só depois soube ser esse o corte de cabelo tipico dos jovens e homens iranianos, mas ele parecia o Mel Gibson. uma vez falei isso pra ele e ele ficou todo orgulhoso, me agradecendo. me disse que na verdade ele era diferente até entre os iranianos, que são mais morenos e de sobrancelhas grossas, porque seus pais eram do Uzbequistão, praticamente na Russia. outro fato que indicava ser de origem arabe eram suas calças jeans "baggy"; parece que o embargo americano fez com que os iranianos estacionassem nos anos 80, assim como os carros sexagenarios que circulam por Cuba até hoje. enfim, o cara era iraniano.

    pior que pelo fato de sermos parecidos de alguma forma, a barreira da lingua não impediu que nos tornassemos bons amigos. ele me explicava pela "linguagem universal dos sinais" (...!) sobre o trabalho, a lingua e o modo de vida japones, e tambem o quanto ele odiava estar sozinho naquele lugar onde todo mundo tinha olho rasgado e a polidez sistemática japonesa. achava que só por eu ser fisicamente parecido com ele tinhamos algo em comum, e apesar de eu ser cristão (ou na teoria eu seria) ele poderia confiar em mim. mas com o tempo fui vendo como ele era diferente de mim, culturalmente falando: era um cara esperto, mas era muito machista e homofóbico; achava besteira o meu vegetarianismo mas não comia carne de porco porque Allah lançou no porco animal toda a impureza da humanidade; odiava tudo que lembrava America: "amerikan butá", ele se referia. porco americano, traduzido do japones. de certa forma não podia deixar de concordar, afinal a America fudeu com o país dele. era muito religioso: perdia 20 minutos do horario do almoço pra estender um pano no chão em direção Mecca, e rezar. acho que a segunda entre as 5 vezes ao dia que parava pra fazer isso. mas não usava o turbante islamico nem barba: "fundamentalistas eram uns imbecis", ele dizia. ele não entendia como eu conseguia sobreviver sem religião, que era a roda que movia a vida dele. eu respeitava muito a sua fé, e demonstrando meu interesse ele chegou a me mostrar alguns aspectos bonitos do Islamismo, coisa que aliás toda a religião tem, afora o fanatismo patológico. toda a religião tem a sua beleza, seu lirismo e encantamento. o que fode a religião são seus seguidores, enfim... vai entender! mas enfim, ao ver que não conseguiria me converter, só ficou nas explicações basicas mesmo. nem foi chato, foi instrutivo.

    certa vez falando de guerras (Coreia do Norte havia lançado um missil em direção ao Japão e a porra do missil caiu no mar, os bichos nem sabem fazer uma merda de missil descente) e o Ali me contou que ele tinha servido ao Irã na guerra contra os vizinhos do Iraque. disse que ele era floricultor e foi convocado pro front. mas não entrou em detalhes: disse que não gostava de lembrar das coisas que ele viu na guerra, que era muita desgraça pra lembrança de uma vida só. disse também que os iraquianos de Saddam eram muito cruéis, muito mesmo, inclusive com mulheres e crianças. e só isso. nunca mais nem disse nada. eu ficava curioso em perguntar, mas ele não gostou de lembrar e eu nem toquei mais no assunto, enfim.

    depois de seis meses em sua companhia, acabei tretando com o japa chefe e vazei pra outro canto do Japão. nunca mais vi o Ali, acho que nem me despedi dele. mandei alguns cartões postais, mas ele nem respondeu, talvez nem tenha os recebido. depois ainda passei mais dois anos e meio em terras niponicas, conheci peruanos, chineses, mais filipinos, e muitos, muitos brasileiros, pessoas otimas com estorias de vida interessantissimas. mas sempre lembro do Ali porque foi um cara diferente, com uma aura diferente, um cara complascente apesar de ter sido soldado na guerra do Irã-Iraque e ter visto coisas horriveis, desastres da guerra que modificam a personalidade das pessoas. e apesar de uma vidinha de merda que vivemos aqui, nem sabemos o que é viver na merda de verdade. todos os creditos ao jeito gente fina e "deixa disso, para com isso" brasileiro, sempre dando seus pulos: malandro sempre, mas treteiro jamais. assim que é.

    apesar que existe o trafico, existe a policia e existe a pobreza. é uma guerra, não deixa de ser uma guerra. mas isso é outra estoria: não dá pra comparar treta de vizinho com bagunça dentro da propria casa...

    sobre 3 dias em Amsterdamned.

  • terça-feira, 31 de março de 2009
  • Wash.
  • (trecho extraido do diario da tour Europa 2005 Discarga / I Shot Cyrus)

    Amsterdam, 17 de Outubro de 2005 - um pequeno resumo das últimas duas noites em Amsterdam. na primeira - domingo 16 de outubro - ja fomos levados de cara para a esbornia: a Red Light Area. indescritível: eu já vi o sobe e desce da Augusta pegando, nos meados dos anos 90; já vi a Vila Mimosa em seu esplendor aterrorizante; mas a Red Lights de Amsterdan é um bagulho hipnotizante, realmente indescritível: se sua alma inconscientemente tem uma tendencia para a vida mundana, fraquejar, pode se considerar pego: entre os pubs magnificos e fervilhantes e os "coffee-shops" aconchegantes, vitrines exibindo garotas lindas, garotas half-mouth, garotas horríveis, garotas que não são garotas. entremeio as vitrines, comboios de turistas de todas as idades permitidas, de 18 a 70, exploram os arredores como se o lugar fosse a Disneylandia, como se as prostitutas fossem produtos em vitrines de um shopping. um turismo confuso e surreal: num coffee-shop vimos pela vitrine uma comunidade de velhinhas turistas sexagenarias fumando uma tora inacreditável; sorriram pra nós e deram tchauzinho com o bei no meio dos dedos, e nós estarrecidos do lado de fora da vitrine. que estoria de glaucoma o que, cara!!... e bastou meia hora nesse padrão pra estarmos bem adaptados ao nicho, nos sentindo em casa! bem... EU estava me sentindo em casa: ainda no domingo eu e meu amigo Gui andamos por todo o centro. cafés bistro e coffee-shops, lojas de souvenires, bares de jazz, algumas lojas de disco... esse sim é um lugar do caralho! no terceiro dia em Amsterdam eu já sabia onde ficavam todos os lugares, de tanto que andei.

    então essa noite eu tava na casa do Doidão; banho tomado e bem comido, resolvi dar uma volta por esse planeta convidativo chamado Amsterdam. I am sterdam. Amsterdamned. me myself and i, nem chamei ninguem. depois de andar e andar e andar, acabei sozinho aqui no pub San Francisco, um cafofo bukowskiano agradavel, tentando não ficar bebado o suficiente pra poder cuidar da minha própria segurança num pub cheio de chapados, traficantes e prostitutas. alguns são simpáticos e puxam conversa, mas não dou muita trela, só respondo. parecem simpaticos, mas nem dá pra confiar em ninguem aqui. me afasto do balcão pra uma mesa pequena, tentar escrever tranquilo, e uma puta senegalesa ou de algum canto da africa cola junto a mim. ela pede cigarro, mas não fumo nem tenho isqueiro, pensando que isso a manteria afastada. mas ela puxa assunto, pergunta de onde venho. o nome "Brasil" afeta as pessoas do resto do mundo de forma contagiante: todos gostam de conhecer brasileiros, não sei o que é isso!... ela me conta um pouco sobre o país dela, como as coisas são dificeis lá, do porque de estar ali trampando na Red Light, coisas assim. eu escuto com atenção, mas quando ela se oferece pra um programa eu desbaratino, digo que tou sem grana, qualquer coisa assim. mesmo assim ela é educada, se despede e vai pra outra mesa com maiores possibilidades de se dar bem...

    a essa altura da madruga, o bar já se pondo a fechar, pago minha conta e volto pra casa do Doidão pra descansar um pouco pra jornada de amanhã. Ainda saindo do pub me arrisco a procurar outra coisa pra terminar a noite. Em vão: bora pra ferry-boat porque já são quase 5h e tá tudo fechado e eu bem bebado. mas são o suficiente pra não esquecer dos detalhes da noite magnetica de Amsterdam, das vielas, dos pubs, das vitrines, da perdição do sexo, alcool, comida e drogas: o cara tem que ser muito controlado pra não desistir de tudo e ficar por lá mesmo, jesus maria e josé!!

    um dia taco fogo em tudo e venho de vez pra cá, godamned!!!...

    freestyle #2

  • sexta-feira, 27 de março de 2009
  • Wash.
  • é na quaresma que a identidade se revela. o olfato apura, a vista aguça, o ouvir campeia mais longo. as costas arquejam, insinuam as mãos em direção ao solo; se vacilar voce começa a rastejar, a andar de quatro como o seu animal feroz, aquele, guardado num desses armarios-arquivos da sua cabeça. as altas e baixas da maré, dizem que tambem inluencia. força gravitacional da lua, é o que dizem. luminescencia causada pela reflexão espelhada do astro rei, o Amon-Rá, o Surya, o Helium, o Kinich Ahau... e só por essa luminescencia já merece um sacrificio, mesmo que não seja cruel com os outros, mesmo que seja apenas uma penitencia, um auto-flagelo, uma transformação da propria identidade, aquela identidade que voce resguarda pelo dogma de resguardar, pela tradição de não mudar. ou pela simples preguiça de levantar do sofá, já marcado pelos contornos do seu traseiro incapaz.

    enquanto isso as autoridades continuam sua busca burocratica, sentados em seus desks munidos de muito café e broas de milho, ditando o que deve e o que não deve ser feito. cabe a voce obedecer as ordens. ou ignora-las. ou apenas omitir que na verdade voce é o lobo da quaresma que eles tanto procuram. bem, nem tanto: mandam procurar. enfim, não importa como seja o modus operandi, mas eles o querem em mão, sob controle. mal sabem que o tem ao seus lados, trabalhando junto deles, comendo suas broas de milho e bebendo do seu café. basta um explosivo plastico no carro estacionado lá embaixo, proximo ao bureau, e as atenções serão desviadas do foco do lobo, e voce pode continuar por aí, sob a força gravitacional da lua, sob o reflexo do sol, sob a influencia da maresia. e assim, na quaresma, a identidade se revela pra si proprio, apenas.

    sobre assuntos mais atuais do momento

  • domingo, 15 de março de 2009
  • Wash.
  • é, acho que a coisa anda ficando feia mesmo: a Troia não deve ter gostado da ultima variedade de ração que eu comprei, nem quer come-la, e hoje cheguei ao cumulo de jogar na cara dela: "num reclama da comida não, voce nem tem que pagar conta nenhuma..."

    ela é um gato. gatos não pagam conta.

    acho que preciso de um emprego novo....

    "who watches the watchmen?..."

  • segunda-feira, 9 de março de 2009
  • Wash.

  • "voces estão enganados! não sou eu que estou aqui preso com voces: voces é que estão presos aqui comigo!!..."

    (Rorschach, Watchmen.)

    ***

    obvio que depois de assitir o filme eu não resisti de escrever sobre ele, obvio...
    foi uma porcaria de um sabado frustrante: tava com uma puta fome e não consegui chegar a tempo no Lotus; não consegui folga do trampo e nem dinheiro pra ir no Circle Jerks; não consegui sair a tempo do trampo pra ir na festa de um amigo, além de continuar sem dinheiro, sem balada e cansado bagarai. derrotado: me restou fazer um ranguinho em casa e cair na cama. mas no domingo não ia dar pra passar batido, não ia desgraçar o meu fim de semana por completo. tinha que ter algo pra salva-lo: e antes do trampo tive que ir ao cinema assistir WATCHMEN.

    eu sei, a essa hora deve ter um zilhão de blogs por aí borbulhando sobre Watchmen, a estreia cinematografica do ano, a obra prima de Allan Moore filmado BRILHANTEMENTE por Zach Snyder, o Spielberg da nova geração, blah blah blah... eu sei que é carne de vaca. mas que se dane. tou afim de escrever sobre Watchmen porque sou um nerd que comprou essa caralha quando saiu a primeira edição e espero por esse filme ha pelo menos 15 anos, então me deixe.

    primeiras considerações: se eu fosse o mal-humorado do Allan Moore, eu ficaria orgulhoso pelo menos dessa vez de ter uma obra minha transposta pra tela de forma tão coerente e magistral; é óbvio que a maioria das adaptaçoes de livros ou quadrinhos para o cinema não são fieis. não tem como ser: pra adaptar tudo que a estoria pede, viraria uma novela. mas Watchmen coube num longa de 3 horas sem deixar buraco no roteiro, sem enrolação e sem grandes perdas da estoria original. sem contar que não houve incongruencias como ADAPTAR figuras ou situações politicas pros dias de hoje, não. o roteiro se manteve nos anos 80, assim como foi escrito. alguns quadros foram extremamente fieis à quadrinização original. até a trilha sonora se manteve inabalada nos anos 80 e antes, sem adaptações de bandas novas e coisas assim (muito conveniente uma cena que um grupo politico discute planos de dominação mundial enquanto rola "everybody wants to rule the world", dos oitentistas Tears for Fears, em BG). e o melhor de tudo: ainda bem que demorou tantos anos pra adaptar pro cinema, graças a tecnologia proporcionada. se fosse ha 5 anos atras, provavelmente teria saido uma porcaria.

    legal a movimentação, efeitos visuais, dinamismo, violencia, porrada, sexo, essas coisas todas que fazem parte... mas correndo o risco de fazer um comentario cretino aqui, dá pra dizer que o grande insight de Watchmen é decompor a imagem do super-heroi, do homem inatingivel, inquestionavel, do homem como ser supremo no universo. Moore dichava o id, ego e superego com uma estoria onde a grandiosidade do homem na figura de herois uniformizados que "mascaram" mau-caratismo, abuso de poder, promiscuidade e loucura. desculpe a frase pronta, mas tudo indica que Moore é desses que "escrevem certo por linhas tortas" (entenda escrever certo como discussão filosofica e linhas tortas como quadrinhos juvenis). ele traça um possivel percurso da historia dos anos 80 em diante, existindo a possibilidade de que um supergrupo de defensores (sendo que apenas um deles tem poder sobrehumano ilimitado) ajam de acordo com o "bom-senso politico" americano. não dá pra contar a estoria inteira, mas o decorrer de algumas situações criadas rola uma analise filosofica fudida sobre moralidade, existencialismo e a relação homem-deidade. não foi a toa que Watchmen mudou o curso das revistas em quadrinhos e do formato humanizado dos herois de quadrinhos modernos: o bagulho é genial.

    meu destaque em tudo isso fica pro Rorschach, ex-integrante do grupo de super-herois que resolve investigar o assassinato de um deles, no maior estilo film noir, narração em primeiro plano. Rorschach é um anti-heroi de crueldade unica, violento até o osso, e com uma disfunção de personalidade brutal que só se reconhece socialmente com uma mascara na cara, e quando sem a mascara é quase um casulo de pessoa. Rorschach é em termos o mais desequilibrado, e no entanto é o unico a encarar de frente um "deus" em nome dos seus principios. o deus ganha, é claro.

    Top 5 Albuns "Fuckin' Ever", parte 2

  • domingo, 1 de março de 2009
  • Wash.
  • parte 2: John Zorn's Naked City - debut

    (download)


    quanto se pode destilar de horror, brutalidade, morbidez e esquisitise da figura de um judeu de meia idade, esqualido e desengonçado usando um óculos bottonglass? John Zorn mostrou, com esse Naked City, que o monstro contido num nerd pode ser ilimitado...


    lá pra 1991 eu comecei a comprar cds. me alegrava comprar cds; depois de anos eu conseguia deixar a velharia do vinil e entrar na maravilhosa era da tecnologia digital. eu mal sabia como estava enganado com essa troca...


    bom, pelo menos na época era uma boa alternativa pra até então "não-existencia" da internet e do mp3, e pra quem não encontrava as bandas que queria, pq o cd trouxe muita coisa pra cá que se fazia dificil trazer em vinil, não valia a pena pras importadoras. agora, anos depois, vemos que a midia da nova tecnologia é fragil demais e fica obsoleta em pouco tempo, enquanto o bom e velho vinil, com os devidos simples cuidados, dura pra sempre, e com qualidade muito superior de som...


    mas o Naked City. assim q eu comecei minha coleção de cds, um dos primeiros que comprei foi esse que ja me era chegado como classico sem nunca ter ouvido antes: o disco debut do Naked City, formados por veteranos do jazz novaiorquino e encabeçados pelo cultuado John Zorn, que já fazia seu nome por anos a fio com seu nivel acentuadamente evoluido pela vanguarda local. serio: ao lado de John Zorn, só alguns poucos musicos de nova york conseguiram exito em levar o avant-garde para um publico, não muito grande porem diferenciado, mais direcionado ao rock: entre eles o Sonic Youth, o DNA e o Half Japanese, que tiraram as influencias diretamente da "vanguarda mais vanguarda" dessa cena (Glenn Branca, John Cage e Stockhausen) e meteu a formação guitarra/baixo/drum kit tipica do rock. no caso eu destaco John Zorn por ele chegar a um nivel relativamente "extremo" do termo varguarda. ele associou, tendo como base a intensidade e espontaneidade sonora, as cena grind/hardcore de nova york/londres/tokyo, diretamente como um "braço" da musica de vanguarda que vinha sendo trabalhada por caras como Ornette Coleman, Art Essemble of Chicago, Don Cherry, caras do jazz mesmo!... e essa associação musical de repente fez sentido pra mim, e me fez ver Napalm Death e Extreme Noise Terror com outros olhos. no disco, ele não cita nem agradece nenhum artista do jazz varguarda, como podia se esperar: ele agradece e cita Napalm, E.N.T., Boredoms, The Accüsed, Lip Cream, Carcass, Ruins, entre outras bandas extremas. anormal para um musico de jazz com formação classica em piano e que domina de forma aterradora o saxofone e criou um instrumento chamado "game call"??... dessa forma quase nada seria estranho.


    Nem tampouco o acharia, se baseando por exemplo no trampo grafico de todos os cds do Naked City; temáticos, todos abordam assuntos tabus: o debut levava na capa uma foto do cadaver do gangster WeeGee, o presunto estendido no chão com a boca arregaçada. isso além das ilustrações sinistras do desenhista outsider japones Maruo Suehiro. Torture Garden traz cenas de filmes undergrounds japoneses de bondage e SM extremo; Grand Guignol, homenagem ao teatro de horror frances que chocou Paris no começo do seculo 20, mostra uma cabeça humana milimetricamente serrada expondo partes do cerebro; um dos q mais choca é o Leng T'che, que mostra uma foto rara de uma execução publica chinesa medonha, que consistia em entupir o condenado de ópio e fatia-lo, vivo, em 100 partes (em mandarim, leng t'che).


    foi um choque auditivo. Naked City começa com uma leitura estranhissima do tema de Batman, retorcida sob sua base original. a seguinte não indica nem um pouco o climax do disco: é uma releitura do classico de Morricone, the Sicilian Clan, cheia de bases climaticas e suaves, lindissima, assim como mais algumas trilhas encontradas no segmento do cd inteiro. mas a paulada na fronte vem com Reanimator, obviamente homenagem ao filme gore dos anos 80; dai em diante o quinteto arregaça uma brutalidade sobre os instrumentos, na boa, de ficar de queixo caido. no ápice do esporro, o quinteto varia em sexteto, botando o japa mais insano da ilha, Yamatsuka Eye do Boredoms, no vocal (vocal??...); os berros de Eye, que mais parece estar sendo morto a pauladas, ou atacado por um urso, dão o grande toque de sofrimento e agonia por tras das composições caóticas, que por sinal eu pensava que os caras tocavam no default, mas pra minha grande surpresa comprei um video anos atras do Naked City tocando ao vivo no NY Radio Music City Hall, e lá estão eles, todos os cinco seguindo partituras!!... quando entra o japones, contrastando com o resto da banda com seu estilo crust de dreads saltando pra fora do capuz na cabeça, ele é "regido" por Zorn, que dá os sinais do momento certo pra que Eye solte os gulturais podres no meio da musica. esses shows do Naked City deviam ser espetaculares, já que as vezes Yamatsuka Eye era substituido por ninguem menos que Mike Patton... daí a destruição atinge patamar catastrofico. o projeto Naked City encerrou suas atividades em 1993, mas Zorn continua até hoje a trabalhar com o seu "grind-avantgarde" em projetos como Cynical Hysterie Hour, Nani Nani solo com Yamatskuka Eye, Hemophiliac com Patton e Ikue Mori, a serie Music Romance, Moonchild/Astronome/Six Litanies, entre os muitos projetos que mantem. com certeza um dos caras que mais trabalham no cenario musical mundial da atualidade. e apesar da barulheira toda, acredite: pra ele isso é jazz. como dizem as letras pequenas no encarte do Spy vs. Spy: "fuck hardcore rules".


    PS: tem um blog italiano que além do debut Naked City, tem a discografia inteira, assim como os trabalhos de Zorn no Painkiller, Masada, Filmworks e varios outros. indispensável pra quem gosta desse maluco.


    http://zornography.blogspot.com/
    enjoy.

    Top 5 Albuns "Fuckin' Ever", parte 1

  • terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
  • Wash.
  • minha vida até esse ponto foi guiada pela musica. e acredito que continuará sendo, 99% de certeza que a musica vai continuar influenciando nas minhas decisões. não que isso seja bom, mas tambem não é necessariamente ruim; já fiz escolhas erradas, já fiz merda por causa da musica, mas o que posso fazer se as coisas tem que ser assim? hmm, eu até poderia mudar o curso das coisas, mas pra que? por que a musica deveria deixar de influenciar na vida das pessoas? deixa como está, que dá pra se virar. melhor se fuder com trilha sonora do que se dar bem com uma vida insípida sem som.

    e se tivesse que escolher cinco discos que definisse a pessoa que voce é hoje em dia, se levado em questão a influencia que a musica exerce sobre a sua vida? com certeza é uma ideia cretina... apesar disso é bem divertido de fazer. acho que todo mundo deveria tentar!...

    vou usar um criterio aleatorio, pois cada um tem a sua importancia na minha gloriosa e aureada vida (pfff...), começando pelo jazz:


    (download)

    parte 1: John Coltrane & Duke Ellington: In a Sentimental Mood

    o meu forte, desde o começo, foi o rock. ele começou meio barango, pendente, com umas fitinhas cassetes no carro do meu pai... depois de um tempo se desenvolveu, ficou maduro e apurado; mas basicamente ainda era o rock, e eu não fugia pra outras arestas nem por dinheiro: meu gosto era incorruptível.

    pois bem, uma bela tarde meu amigo Kiko Dinucci chegou em casa com umas mix-tapes na mão. nerds de musica nessa época, queriamos descobrir e descobrir e ver até onde chegava nosso conhecimento. dentro de uma mãozada de fitinhas de punk, indie, post-hardcore e grind, ele tirou uma do meio. Duke Ellington & John Coltrane: In a Sentimental Mood. "mas... vc descolou uma fitinha de jazz??" eu estranhei. "é, (acho que era) o namorado da minha irmã me jogou essa na mão, ouvi e gostei. ouve ae depois..."

    deixou lá a fitinha de jazz no meio das outras. "jazz... é meio que um saco. escuto uma hora ae pra ver qual é", pensei. um dia que ia saindo pra dar uma caminhada até os condominios da frente resolvi meter a fita no walkman antes, "pra ver qual é desse jazz"...

    TUDO na caminhada mudou. o caminho, as coisas que eu passava por, as pessoas que eu cruzava pelo caminho, os muros, o chão, o céu, a grama do parque... tudo. juro com prova até de quem me conhece que eu nunca usei acido na vida, mas o som daquela porra me fez ver tudo mais colorido, mais vivo e palpável, tudo ficava mais bonito. conforme as musicas iam rodando na fita magnetica, eu sentia um troço diferente: "Big Nick" me deu a calma que eu não sabia aonde encontrar. "Stevie" me deu uma certa malicia, agilidade no andar. um par de olhos na nuca. "My Little Brown Book" me despertou compaixão sem igual, massageou um coração inquieto, me inspirou a fazer uma coisa boa. "Angelica" me abriu um sorriso no rosto sem nenhum motivo aparente: só me sentia feliz. e foi dai por diante, sentimentos apurados a cada musica que ia passando. a todo momento percebia algo no caminho que já estava lá havia tempo, mas eu nunca tinha notado.

    desde então o jazz roubou uma grande porcentagem do meu gosto musical. GRANDE parcela. e eu ouço muito o jazz; ouço, sinto, absorvo, aprendo, cada dia um pouquinho. é engraçado que eu sempre aprendo muito com o jazz: é só o instrumento vibrando, não existem vozes nem figuras de linguagem direta, mas ele me diz muitas e muitas palavras. engraçado que eu sempre tenho algo a dizer, ou algo na cabeça pra mim mesmo, quando ouço o jazz. e esse disco em especial. e a musica titulo em especial.

    hoje não foi um grande dia da minha vida, nada que me faça lembrar, nada que o valha como um dia em minha vida. mas eu liguei o player e tocou "In a Sentimental Mood" e meu dia mudou. melhorou, simplesmente melhorou. numa curva de esquina um carro passou levemente por uma possa dagua, da chuva que acabara ha pouco, e a possa tremulou levemente. lindamente! nunca havia visto antes uma possa dagua tão linda!!! pessoas calmas pela rua, um boteco servia um café preto ao caminhoneiro, uma mulher empurrava um carrinho de bebê... o mundo girava como a todo momento, mas ao som de "in a sentimental mood" ele girava mais complascente e vibrante. girava mais "redondo". é uma musica perfeita pra tomar um café, sentado numa mesa olhando a rua, ou passar a mão na cabeça de um cachorro, ou observar as pessoas na calçada sentado no banco de um onibus. ou qualquer outra coisa que voce considere cretina ou obsoleta na vida.

    as desventuras de Benzina (parte 2: o encontro com o tubarão)

  • sábado, 24 de janeiro de 2009
  • Wash.
  • ok, criei coragem pra dar sequencia à segunda parte pra essa que pode ser a menor epopeia da historia - e a mais obsoleta, isso com certeza - onde encontramos nosso heroi Benzina flutuando nas aguas escurecidas de Santos circulado por uma barbatana e seu tubarão, sedentos por carne fresca de paulistanos farofeiros adictos em drogas. como isso aconteceu?: bom, peguei ele contando a estoria a partir desse trecho quando cheguei na banca... mas depois me contaram a façanha por completo desde o inicio e, desacreditado, mais uma vez chorei na rampa pelo descaramento do nosso compatriota ao relatar tal conto de vigario, e consequentemente, pensar que nascemos ontem!...

    dessa vez relatava ele sobre descer até Santos num final de semana qualquer, em outra ocasião além daquela da moto - sim, por certo ele descia até o litoral com a frequencia de um garoto proletário que finge ser da média-alta - bem, dizia que naquele dia ele, sua garota e alguns amigos aproveitavam o calor da praia central e a rebentação espumante das ondas sujas santistas. chegara logo pela manhã, antes do sol estalar na nuca. no carro traziam pranchas, baseados e baralhos. pro rango básico, traziam frangos, guarnições de arroz e salpicão e torta de forma, bolos pullman de supermercado e muita, muita cerveja nos isopores com gelo. algo dizia que aquilo tudo não cairia muito bem...

    pois bem, o programa corria ao combinado: ao chegarem já foram logo caindo na agua, pegando algumas pequenas ondas por conta da rebentação baixa. do meio do dia à parte da tarde se resguardaram do sol forte sob os guardasóis dos quiosques, comeram seus rangos, beberam quase toda a cerveja que trouxeram - o que não ficou quente no isopor, por suposto - e compraram mais dos ambulantes caiçaras... se embebedaram, basicamente. por fim, pra completar o indigesto cardapio praiano, comeram uns bolos e compotas que trouxeram na viagem. ele proprio comeu sozinho dois daqueles rocamboles enjoativos. satisfeito, ele se jogou na areia quente pra pegar um bronze. dormiu, induzido pelos efeitos da digestão pesada e pelo grau da cachaçada.

    acordou todo ardente, vermelho pela exposição exagerada ao sol e ao mormaço. a melhor ideia que teve nesse momento foi se levantar e correr pra agua salgada do mar e se atirar, pra dar aquela aliviada no ardor. resolveria momentaneamente, até o sal da agua começar a penetrar a pele ressecada e a sensação de queimação aumentar, mas isso não vem ao caso na estória; acontece que a agua fria do mar lhe despertou as sensações de volta, e resolveu nadar um pouco. mesmo correndo o risco de uma cãimbra pós digestiva, nadou. nadou a revelia, até um ponto que se sentiu distante e desnorteado; olhou pra tras e estava longe da praia mesmo, mas ok: desde que começasse a voltar com calma, chegaria de volta à praia são e salvo. nas primeiras braçadas de volta, sentiu um esbarrão no pé. achou estranho, mas imaginou que provavelmente era algum peixinho pequeno curioso ou um sargaço sem direção. continuou nadando e sentiu mais outro esbarrão, dessa vez deslizando em sua perna por tempo demais pra ser um peixe pequeno. parou flutuando um pouco e viu a barbatana. era o que ele temia: uma porra dum dum tubarão.

    "...que eu faço, que eu faço, que eu faço...", pensava insistentemente e sem chegar a uma resposta: se ficasse parado, uma hora seria mordido. se tentasse nadar e se debatesse com violencia na agua, seria abocanhado de uma só vez como um leão marinho. não via embarcação nenhuma ao redor, ninguem pra pedir socorro, e a praia ainda distante. e a proximidade do tubarão era relevante: só um milagre o salvaria.

    mas no vocabulario do Benzina constava sim, a palavra milagre. e foi o que aconteceu. quando a derradeira hora se aproximava, ele sentiu algo grudado em suas costas. poderia ser um desses pequenos peixinhos parasitas do tubarão, que se grudam na sua pele pra pegar os restos de suas refeições. bateu a mão em cima e puxou para si: era a faquinha de plastico, aquelas que vem dentro das embalagens de rocambole que ele havia comido ha horas; ao abrir o rocambole, Benzina em sua grotesca falta de senso civil, jogou a embalagem na areia da praia pra degustar melhor o quitute, sem o incomodo de pedacinhos de plastico na boca (sic...). a faquinha voou pra tras de suas costas, e após devorar tudo ele se deitou sobre a faquinha, que adquiriu aderencia incrivel à sua pele ao combinar a loção bronzeadora com a grossa camada de gordura vegetal hidrogenada que vinha exposta no rocambole.

    muito bem, voce deve estar imaginando o que ele nos contou a seguir. e foi isso mesmo que ele contou. exatamente. vamos fazer um corte abrupto e uma colagem na proxima cena, e resumir que o Benzina chegou à costa da praia carregando um tubarão pelo rabo e uma faquinha de rocambole quebrada ao meio, coberta de sangue do animal feroz...

    mas até a cara de pau do Benzina teria um limite?: ao dizer que teria "matado o tubarão com as proprias mãos e uma faquinha de rocambole", não conseguiu evitar de escapar uma risadinha presa em sua garganta. mas isso não o fez desmentir todo o ocorrido. nem tampouco o coro de "aaaaahhhhhs" que a galera soltou! não, de modo algum! ele teria uma foto em casa do peixe grande, e numa outra oportunidade nos mostraria, sim, com certeza!!...

    é. a cara de pau dele não tinha limite não.