sobre o ato de ter um blog

  • quinta-feira, 15 de abril de 2010
  • Wash.
  • esse post vai em solidariedade ao meu amigo Marcelo Mayer, um blogueiro esperto, esperto não por ser blogueiro porque isso não é parâmetro pra nada: esperto porque usa isso aqui da forma correta: pra passar o tempo com sagacidade! sim, as duas coisas ao mesmo tempo!, demonstrando que é possivel vida inteligente nessa tal de blogsfera. confesso que ele não é o único, existem sim alguns vários blogs interessantíssimos, dá pra citar aqui até uma meia dúzia de alguns conhecidos que eu sigo e que vale a pena mesmo, te traz algo consistente: exemplos são meus amigos do APES e do Desmanche de Celebridades, sempre na vanguarda da massa pensante; tem alguns bem úteis, como o pessoal do Hominis Canidae; tem utilidade cultural no Desova do meu amigo Sávio, ou os comentários ácidos do Menezes sobre vida banal no Rascunhos de um Cotidiano Tedioso; tem as versões digitais dos saudosos e subversivos zines nas páginas do Zinismo e Lado [R]... tá vendo? foi até mais que meia dúzia! o mundo ainda tem salvação, enfim.

    agora, só pra enfatizar a idéia geral, sendo objetivo e sem perder o foco porque já to com sono e está tarde: blogs podem ser bons passatempos, mas não vão salvar a vida de ninguém. o que eu quero dizer é mais ou menos isso:



    e sim, aproveitando o encejo, foda-se o meu também.

    sobre o Ficha Limpa (ou sobre coisas que a gente sabe que nunca vão mudar)

  • terça-feira, 13 de abril de 2010
  • Wash.
  • eu não gosto de política. nem um pouco. pra ser sincero eu odeio política. uhum. nem sei porquê inventei de escrever algo sobre isso, eu nunca votei em nenhum candidato, nunca tive candidato: sempre anulei meu voto. nem posso dizer que acho isso bonito, algo pra se orgulhar. afinal, anulando seu voto, você também está SE anulando como indivíduo na sociedade em que precisa conviver, dia a dia; a explicação mais coerente pra isso que eu posso te dar é que talvez dessa forma preferi me ausentar, nesses anos todos, do peso da responsabilidade de colocar um imbecil lá, decidindo por mim coisas que eu não preciso que decidam por mim: eu sei das minhas responsabilidades, dos meus deveres e principalmente dos meus direitos convivendo com todas essas 19 milhões de pessoas confusas e sem direção, das quais muito provavelmente mais de 80% precisem de alguém falando sim, o que elas devem fazer de suas vidas. óbviamente sem um resultado palpável, mas...

    e além disso, PRINCIPALMENTE, pra não me arrepender ao ter colaborado em tamanha besteira quando vejo por algum veículo de informação que aquele mesmo cara em que eu havia depositado minha confiança, há meses atrás, deixou um rombo faraônico na grana da União, deu uma de louco e renunciou o cargo, pra poder se candidatar na próxima eleição com aquela cara lavada de "eu nem tava aqui quando isso aconteceu". a não serrr, claro, que você desperdice o seu precioso voto num cara que foi "ENGRAÇADO" na campanha; ou naquele outro que tem um discurso assombrosamente fascista mas você não repara no que ele tá dizendo porque a barba dele é "esquisita" e ele consegue articular 450 palavras em 15 segundos de propaganda. ou quem sabe naquele ator famoso que não sabe NADA de política e só entra lá porque quer (assim como você e eu) um salário astronônico e imunidade politica até pra tocar fogo em mendigo ao meio dia no viaduto do Chá, se tiver vontade. (que fique claro: eu não tenho vontade de tocar fogo em ninguém!, só de ganhar o salário que esses bastardos ganham.)

    mas a questão em voga que eu proponho nem é a politica em si. são os atos praticados em torno da politica, pequenos e imperceptiveis (!!...) detalhes, coisas que todo mundo tá careca de saber que acontece, enfim, presepadas de todo grau e circunstância que se possa imaginar tendo como apoio simplesmente a imunidade parlamentar pra se defender de qualquer uma delas. e quando falta recursos ou desdobramentos verbais bizarros, simplesmente renunciam, como já foi dito.

    e seguindo a longa tradição da "malemolência" do politico brasileiro pós-ditadura - eleição de Collor calcada pela midia-orwelliana, máfia consentida PC Farias, contas bancárias impensáveis de Paulo Maluf nas ilhas Caimãn, as inúmeras (inúteis) CPIs de precatório, pizza, ambulância, mensalão e outros nomes inventados pra virar piada, abuso de poder de Renan Calheiros, mais mafia consentida de Roberto Jefferson, o caso Arruda mais recentemente, só pra citar alguns exemplos, caso o BBB #10 e quedas de aviões e caso Nardoni e caso Glauco e terremotos no Haiti e Chile e caos no Rio de Janeiro tenham feito você esquecer isso tudo... não se preocupe: isso é feito exatamente com o propósito de que você esqueça tudo mesmo.

    retomando: seguinda essa longa tradição, agora essa do projeto Ficha Limpa, um projeto de lei que proíbe de se re-candidatarem os politicos que por algum motivo tiveram seus filmes torrados na vida pública. na real essa lei é só um "botar de castigo": ela não tem um efeito permanente, só impede por um tempo do fulano continuar ganhando dinheiro da forma que ele bem entende só com o nome do cargo político. só dá um "esquenta" nos bichos, pra ficarem espertos. pra mim, só seria realmente efetiva se BANISSE PRA SEMPRE os caras que fazem mal uso do poder público. mas ok. já é alguma coisa.

    enfim, esse projeto tá em processo de aprovação já desde 1993. dessa vez alguém resolveu levar isso a cabo e, vejam só, era pra ser votado no plenário nessa semana que passou, mas foi adiado!... sem maiores explicações, pra maio!! mesmo tendo em mãos uma petição de 1 milhão e 700 mil assinantes apoiando o projeto de lei!! que coisa, não? porque será que nem eu, provável nem você, nos espantamos com isso?? será que é porque ele passando pra maio, e SE for votado em maio, e SE for aprovado, já foi tempo suficiente pros caras queimados terem se candidatado novamente pras eleições de novembro?? será que pode ter a ver? não sei, viu... quem sabe...

    o lance é que, além desses 1,7mi que assinaram a lista, eles pensam que existem 150 milhões de idiotas que não vêem nada o que está acontecendo em suas voltas; o lance é que abusam da sorte, apoiados na tal imunidade parlamentar, e que não sacaram ainda que na Revolução Francesa, quando a galera se ligou que existia uma diferença entre "humanos e lixo", a imunidade parlamentar foi pras picas, não adiantou de nada pras cabeças rolarem. vão esperando então: eu quero ver as RUAS, se essa porcaria de projeto não for aprovado. 1 milhão e 700 mil, talvez 2 milhões ou mais (continuem assinando), de lenço na cara, molotov na mão, e RUAS!!!

    do mais, e por enquanto, a arma é informação. leia. procure sozinho pela informação. seja seletivo quanto a ela, porque não se deve confiar em tudo que se lê também: tenha bom senso, o bom senso já é metade do caminho andado pro bom aproveitamento do cérebro, essa parte tão subestimada do nosso corpo. aqui vai uns lugares de utilidade pública pra você que não quer ser (tão) enganado da próxima vez que tiver que sair de casa pra ir perder seu tempo (ou não) votando:


    http://www.votoconsciente.org.br/ - no tópico atuação em SP, lá embaixo, tem link pra saber quem são os deputados de SP e avaliação de cada um deles e de seus respectivos partidos.

    http://www.transparencia.org.br/index.html - no Transparência Brasil você encontra projetos que foram aprovados e seus efeitos, concientização do voto, andamentos e processos de licitações, infos sobre corrupção (e combate) no país todo.

    http://www.asclaras.org.br/2006/index.php - o Às Claras mostra dados detalhados pela Justiça Eleitoral de, por exemplo, de onde saiu a grana que seu candidato usou pra financiar a campanha política dele, inclusive quem são os doadores.

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Brasil - só pra conhecer um pouco o lugar onde você mora. coisa básica.

    http://www.midiaindependente.org/ - notícias sobre vários cantos do mundo; coisas que você não vai ficar sabendo no Jornal Nacional, muito com certeza.

    tá na sua mão.

    sobre a Academia Brasileira de Letras (ou sobre o que você deve fazer com a sua vida é problema só seu)

  • segunda-feira, 22 de março de 2010
  • Wash.
  • ahhhh! Simpsons e South Park!: as verdadeiras - e talvez únicas - mentes pensantes da televisão estadunidense! sou fã confesso dessas pérolas da tv exatamente por episódios como esses dois aqui. e de fato você verá, assim que assisti-los, que não os reuni à toa: foi pensando na Academia Brasileira de Letras. (heim???...) é sério! de início vai parecer que não tem nada a ver, mas eu faço as co-relações e passo de um assunto pra outro, você vai sacar: "a nossa violênça têm um porquê".

    ***

    em feveiro de 2010, mais conhecido como "mês passado", a academia perdeu um de seus membros, José Mindlin. não teve obras de suma importância, mas ok, foi um colecionador e apaixonado pela "nossa" língua portuguesa. vá lá, fez assim valer sua presença numa das cadeiras. o tio passou, agora tem uma cadeira sobrando. tendo como base certos nomes que ocupam alguns dos assentos da associação hoje em dia - Paulo Coelho, Ivo Pitanguy, José Sarney, Marco Maciel (sic...), pensa comigo: o que esperar das próximas candidaturas a ocupar o lugar do próspero velhinho? e você, que é estudante das origens e do bom uso desse idioma recorrente, ou inclusive você, que USA esse idioma diariamente pra comer, viver, trabalhar, se comunicar, me responda: OnDjI eH Ki IsSu VaI pArAr, MiGuXxXo?!?!...

    fazendo uma rápida - nem precisa ser detalhada - pesquisa em livrarias ou locais gerais onde vendem livros, qualquer um vai sacar que os items mais vendidos são sempre de alguns mesmos autores: Augusto Cury, Zibia Gasparetto, Gustavo Cerbasi: livros de auto-ajuda!, meu deus, brasileiros são viciados em livros de auto-ajuda! é isso que as pessoas lêem hoje em dia!, tá entendendo onde eu quero chegar?: palestras sobre relações interpessoais carregadas de metáforas e parábolas, frases de efeito, palavras de apoio reflexivas: piadas prontas com a inteligência em construção. (taí uma boa frase de efeito!: por favor senhores escritores, que tal encaixar isso no prefácio dos seus geniais guias práticos da "VIDA: como vivê-la"???...)

    tenho pra mim uma tradução pessoal do termo auto-ajuda: "escolha imposta". essas palestras que os patrões pagam pequenas fortunas pra "incentivar seus funcionários", cheios de boas intenções - satã agradece. trocando em miúdos, é um método suave e indolor de controle de personalidade em massa, passiva à nova ordem mundial globalizada: palestra de auto-ajuda é visar lucro amansando o "gado", camaradas bolcheviques!!!

    anyway, esses dois episódios de Simpsons e South Park eu coloquei aqui pra servir de exemplo prático sobre o que eu to falando. o primeiro trabalha mais com a lógica de uma situação: "faça somente o que tem vontade"; não é um conselho de nenhum gênio, todo mundo anseia em poder fazer só o que tem vontade, isso é uma sequência óbvia pra onde vai caminhando o rumo da sua vida! porém o imbecil que receita essa "fórmula genial" pra massa de Springfield se esquece de dois fatores importantíssimos: as possibilidades - intelectual e financeira - que a população possui pra realizar tal feito. se tratando da comunidade caricata de Springfield (que não isenta verdade no conceito de cultura de massa, inclusive da nossa), daí se tem idéia do tamanho da merda que pode gerar um conselho troncho saido da boca de qualquer idiota que pensa que sabe mais do que qualquer um.



    além desse capitulo dos Simpsons, dá pra citar mais alguns exemplos de como a "auto-ajuda" pode ser convertida facilmente em "auto-destruição" da natureza humana:

    - no filme Réquiem for a Dream, de Darren Aronofsky, um dos personagens, uma senhora dona de casa recebe um convite (não se sabe bem se ela realmente recebe o convite) pra comparecer à uma plateia de algum programa televisivo de auto-ajuda. ela resolve usar um belo vestido vermelho de sua juventude, mas seu corpo ficou desprevilegiado pela idade. resolve assim procurar um médico, indulgente, que lhe receita uma sequência de barbitúricos e anfetaminas pra que ela consiga o feito de entrar no vestido. ela entra. ahh, entra...

    - outra película americana, Magnólia de P.T. Anderson, serve bem pro caso: o personagem de Tom Cruise é um idolo palestrante que tem uma função curiosa: ele ENSINA homens sexualmente inibidos e frustrados a serem devoradores de mulheres, verdadeiros caçadores nas noites dos pubs e boates; o grande problema é que ele se preocupa tanto em parecer o melhor, que apaga da memória os problemas de familia que teve quando adolescente, e tem que enfrenta-los todos de uma vez, da maneira mais dolorosa, no leito de morte do pai canceroso.

    -bom, vou poupar comentários sobre como programas de auditórios dominicais e esses programas observatórios de convivio social, BBBs e afins, todos esses exemplos de repetição subliminar de mensagens como causadores de passivamento social condicionado: todo mundo já sabe disso, né. (será??... qual é a audiencia do BBB mesmo?...)



    o segundo episódio é bem mais ácido. é South Park, poh!: se não for cáustico e politicamente incorreto, não é South Park! é óbvio e dispensa comentários: o ataque vêm no setor espiritual. é. aquele que muita gente ainda acha que pra viver melhor é necessário venerar um ser maior, onipotente, onisciente, onipresente. ou um idiota qualquer que diz ter a palavra da verdade... poh, é foda: eu sei, eu me seguro, eu me desvio, eu evito ao máááximo tocar nesse assunto, mas ocasiões se fazem necessárias. eu gostaria de não ter que dizer que nenhum homem e nenhum deus vai te ensinar como você deve viver sua vida, que não vão te ensinar o que é a verdade, o que é a mentira, o que é certo ou errado. não gostaria de ter que dizer que você já nasceu sabendo, é só desenvolver o lado que te interessa mais. eu gostaria de não ter que dizer que nenhum deus vai te punir se você se masturbar, ou se você escolher não procriar, ou se você não venerar nem ter medo de algo que você nunca viu e nem sabe bem se existe ou não. eu gostaria de não ter que dizer pra você que não adianta bater na sua esposa e no seu filho, ou atropelar um cachorro só pelo gosto de ver o bicho estrebuchar, ou se você torturar e matar alguém, e depois pensar que estará salvo e LIMPO dos seus erros ao pedir perdão na igreja pra algo que não decide por seus atos e julgamentos nesse planeta.

    eu gostaria de não dizer nada disso.
    mas eu digo.

    ***

    ah sim! sobre a votação da ABL! o que vai?: Augusto Cury, Zibia Gasparetto ou Cerbasi?
    eu voto em voltar a falar tupi.

    sobre a insignificância da grandiosidade

  • terça-feira, 9 de março de 2010
  • Wash.
  • conforme fatos e acontecimentos vão se precedendo, com o tempo fica cada vez mais claro, ao que parece, que são nos momentos mais cretinos que se têm os melhores insights.

    tava lá eu de novo no meu ostracismo, assistindo tv. mudo de canal, paro numa matéria de jornal sobre deficientes fisicos e soluções práticas, e algumas fisioterapeutas de atividades ocupacionais tiveram uma ideia absurdamente simples: dobrando alguns ferrinhos maleáveis, facilitam e aliviam a vida de quem tem que desenvolver os afazeres do dia-a-dia, mas não possuem a praticidade que a maioria das pessoas possuem pra realiza-las. ferrinhos maleáveis, vejam só... agora eu fico pensando em teses, palestras, teorias, a busca clinica profissional por soluções, a ciencia mais moderna e milimetricamente exata sendo utilizada... e vai lá uma estudande observadora, entorta uns ferrinhos e voilá!!... resolve os problemas de meio mundo!

    não estou reclamando da ciência e da tecnologia, nem cabe a mim essa prerrogativa, já que é de minha crença que graças à evolução da ciência, da medicina, da filosofia iluminista, ao pensamento moderrrno enfim, que nosso mundo "civilizado" não é mais controlado pela fé e pela religião. ou pelo menos uma parte dele. uns 35% dele, vai...! mas de fato essa não é a questão, e pra isso nem vou me estender: o caso é que as pessoas - eu, você, enfim, as pessoas - tem a péssima mania de complicar o descomplicado, de não enxergar soluções simples, de não enxergar simplicidade no complexo enrosco de teorias, fobias, regras, direitos e deveres, hierarquias e taboos, que criamos para convivermos com o minimo de descência que a racionalidade - e a consequente consciência de ser racional - nos cobra. é tudo tão complicado que se esquece do que é simples.

    e sobra para a comunidade cientifica, com toda sua grandiosidade e eloquência, adicionar silenciosamente esses pequenos detalhes, disfarçadamente, como se eles sempre existissem, como se eles estivessem ali desde o inicio de tudo e de repente a ciência se faz dizer "aah! pode crer! então! eu já sabia! só não queria dizer...", e se recolher em sua ineficácia e insignificância, tendo que engolir um sapo-boi sem nenhum cafézinho pra ajudar a descer, exatamente por não prestar a atenção nos pequenos detalhes. knowledge is the true punk way-of-life, pessoas.

    ok, então eu mudo de canal e tá passando o programa do Datena. eu deixo lá: quem sabe me ocorre outro insight, né...

    sobre a saudade.

  • domingo, 7 de fevereiro de 2010
  • Wash.
  • esse post tem a ver com essa minha ultima postagem. última não: essa dos clipes, mais especificamente. eu tava sem o que fazer em casa, depois de meio dia de trabalho, bebendo umas cervejas e vendo videos no youtube, escolhendo alguns pra postar aqui, só pra não deixar esse blog empoeirar. não tenho muito o que escrever ultimamente, isso acontece as vezes. enfim, de um video pra outro, encontrei esse video do Beirut, banda bem legal por sinal, por mais que digam o contrário: a banda não tem culpa se foram adotados por um público que não corresponde... mas ok, sobre o videos, nem sei se é um video oficial da música, parece ter sido um curta encaixado. mas se for isso mesmo, encaixou muito bem no contexto do som. e no meu contexto pessoal atual, confesso. primeiro o video:





    e após vê-lo e revê-lo, meu deu saudade. sim, uma puta saudade animal, fudida! e sim, junto com a saudade, me vieram alguns questionamentos esclarecedores (ou seriam esclarecimentos questionáveis?)... bom, você pode interagir -e não "interferir"- nessa linha de pensamento de senso comum: você sabe o que é saudade? você já sentiu saudade? saudade de alguem, de algum lugar, de algum momento passado da sua vida? obviamente são perguntas retóricas: você sabe que sim, que já.

    é complicado, em todos os sentidos. a palavra em si já traz uma velha discussão que divide opiniões: alguns dizem que saudade é uma palavra única e exclusiva da lingua portuguesa; obviamente não como sentimento, afinal em qualquer canto do mundo se sente saudade: é inegável que seja um sentimento humano recorrente. mas em expressão, como um substantivo abstrato, e sendo um substantivo não pode ser expressa por um verbo, como ocorre em outras linguas, ao que parece saudade é única. isso romantiza a ideia geral e faz com que nós, brasileiros, sulamericanos tropicais que somos, "calientes", gente afável, que se apega facil e sentimental até o osso, pareçamos os únicos que sentem isso de verdade. se não de verdade, mais do que qualquer outro povo no mundo. pode ser. pode ser. afinal cada povo no mundo dá mais importância pelo aspecto que se sobressai melhor: japoneses amam trabalhar e sua palavra preferida é "gambate kudasai" (se esforce mais, por favor); americanos adoram o "let´s party, dude!"; finlandeses sempre repetem "terveys!" brindando com seus copos de vodka em punho. os eskimós tem mais de 40 nomes pra denominar "gêlo". e nós, brasileiros, os "sofredores-que-nunca-desistem" por natureza, sempre dizemos "tô com saudade", da forma mais sincera possível. sincero sim, senão usaríamos outra palavra, pode ter certeza. e nem acredito que seja banalização da expressão: como eu disse, você pode muito bem usar outra palavra que leve a pensar que se sente a falta de tal lugar, tal coisa ou tal pessoa. e porque é necessário que se desenvolva o sentimento real pra falar ao menos a primeira vez, já que é um sentimento real e não se fala à toa, só por falar. tem que ter culhão. e nós temos essa qualidade de saber quando e como usar a palavra adequada.

    bom, me deu saudade, enfim. e nem foi uma saudade ruim, porque tem aquela saudade ruim, que você sente de algo, algum lugar ou de alguém que você raramente voltará a rever, dependendo do caso, nunca mais na sua vida. isso é uma merda de saudade ruim de sentir, você simplesmente tem que engoli-la a seco, seja do tamanho de um boi, ela tem que passar sua garganta adentro sem reclamação. existe uma saudade agoniante também, que a solução está visivel, você sabe até o que fazer pra mata-la, mas por terceiros motivos se tem que engoli-la da mesma forma que a primeira. e esperar que tudo se resolva da forma que tem de ser.

    mas nenhuma dessas é meu caso. minha saudade só dá aquele aperto, só fica superficial, boiando no topo da garganta, e não vou precisar engoli-la a seco, poderei soltá-la toda. é boa de sentir, porque eu sei que ela tem cura. tem até data de expirar: amanhã.

    ***

    ok, admito: esse foi um momento bem "blog teenager", falando de sentimentos recém-descobertos e novidades que se tem que compartilhar com suas "amiguinhas". ahh, foda-se!, tava afim de escrever essa merda e escrevi. me sinto melhor. é isso aí, te vejo por aí.


    sobre dias de sorte.

  • quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
  • Wash.

  • o post mesmo vai lá no http://fluoxetinacomcafe.blogspot.com/ . pra cá fica só a música magnifica dos Descendents, relativa ao tema. enjoy.


    (intermission)

  • domingo, 24 de janeiro de 2010
  • Wash.
  • pra não dizer que ando abandonando esse blog, dei uma passadinha aqui só pra postar uns clipes bem legais, que eu gostava de assistir na mtv quando essa era uma tv que se propunha a cumprir seu papel de canal de musica... enfim, isso é outra estória. vamos aos clipes:


    *Björk - Triumph of a Heart
    *OK Go! - Here we Go Again
    *Jeff Buckley - Grace
    *Foo Fighters - Everlong
    *Queens of the Stone Age - In my Head
    *Ween - I can't put my finger on it
    *Yo La Tengo - Sugarcube
    *Jon Spencer BLX - Ain't Talk about the Blues
    *Unsane - Scrape
    *Beirut - Elephant Gun


    enjoy.
  • quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
  • Wash.
  • PS: só pra dizer que as quartas feiras eu escrevo no http://fluoxetinacomcafe.blogspot.com/

    câmbio desligo.

    sobre datas comemorativas da falha humana

  • sábado, 26 de dezembro de 2009
  • Wash.
  • e lá vem mais um natal. aquele mesmo negócio, todo ano, que a gente já sabe por simbiose: as velhas lendas cristãs infundadas, o velho Santa da coca cola, época de fartura de trampo pra renas, anões e tios de barba branca imensa, avenida paulista intransitável por causa das malditas fachadas enfeitadas dos bancos, 25 de março parecendo um piscinão público... issumemo: já deu pra sacar que não me simpatizo com o natal, tamo entendido?

    creio que fazem uma bela saraivada de anos que o natal não tem um bom significado pra mim. ou nem é pelo significado, afinal é só mais uma dessas datas que não representa mais do que venderem presentes pra pessoas que se odeiam o ano inteiro e encontram ali naquele dia um motivozinho pra se entenderem - mas só naquele dia!... well, hipocrisias à parte, na verdade natal é algo que nem me recordo bem, ter um dia bom, completamente despreocupado ao seu longo. e eu sempre tava com cara de bunda. sem grana, ou cheio de dividas atrasadas, ou a garota estava longe, ou qualquer outra merda que transforma seu dia comum num divertido weekend com Torquemada no seu playground inquisitivo... uma delícia. então me lembrei de uma determinada data, a do ano de 1999, se não me engano, que provavelmente foi a mais cáustica das minhas "festividades natalinas".

    estava em Ibaraki-ken, no Japão, ja fazia bem uns 6 meses carregando caixas de 40 quilos vindas do estreito de Behring, cheias de King Crab. trampinho lazarento aquele. vamos dizer que um belo dia rolou uma presepada com os donos do galpão, e eu me injuriei da merda toda e dei linha no pipa. num prazo de 3 dias, meu "agente-metido-a-yakuza" me arrumou um trampo na extremidade sul do pais, coisa de 800 km de onde eu estava inicialmente, no rabo de Mie-ken. nem me lembro o nome da cidade, era um vilarejo abandonado pelo progresso tecnológico, tipico em qualquer outro canto do japão, menos ali. lembro que era a penultima estação da linha ferroviaria: uma lavanderia industrial de lençóis sujos. dai já dá um pressuposto que eu tinha me metido numa bela duma enrascada, dessas de lavar banheiro de quartel com escova de dente.

    o trabalho consistia basicamente em recolher esses lençois, vindos de motéis e hospitais japoneses (...), condiciona-los num grande tanque de agua fervendo e depois de lavados e centrifugados, se estendia um por um e os enfiava em enormes passadeiras fumegantes. o troço já saia do outro lado da máquina passado e dobrado. enfim, parecia moleza, a não ser por alguns detalhes:

    1- você pega um lençol quente e úmido, o estende com a ponta dos dedos e enfia uma extremidade no rolo da máquina, ela o engole. um lençol: ok. dois lençois: ok. mas já experimentou fazer isso durante 12 horas no dia??... no fim do primeiro dia minha coluna estava latejando, em formato de "S", e a lateral do meu polegar estava em carne viva. em uma semana, eu não tinha mais impressões digitais nas pontas de todos os dedos das mãos.

    2- como já disse, esses lençois vinham de motéis e hospitais japoneses. nos que vinham dos motéis, encontrava-se de tudo no meio: cuecas, calcinhas, jóias, camisinhas (usadas ou não), dildos, chicotes, bolinhas de pompoar, drenos usados pra enemas... certa vez encontrei um belo sapato feminino embolado no lençol, sem o par. dias depois o companheiro de outra maquina encontrou o outro par embolado em outro lençol. não me pergunte como isso aconteceu. sobre os que vinham dos hospitais, chegavam lá todos... hmm... melhor pular essa parte!

    3- me colocaram num alojamento, junto a alguns peruanos, chineses ilegais, e alguns brasileiros fim-de-linha também. o alojamento era uma sequencia de 10 ou 15 quartos de 2mx2m, no andar de cima, e uma enorme sala e cozinha, comunitárias, no andar de baixo. o banheiro logo ao fundo da cozinha, também era comunitário. um só, enorme. aqueles banheiros como dos presidios americanos, 5 ou 6 chuveiros lado a lado, sem box ou divisórias. me sentia em Oz na hora de tomar banho. a cozinha fedia constantemente, em consequência das sopas de cabeça de peixe que os chinas faziam pra combater o frio do rigoroso inverno japonês. duas geladeiras também comunitárias; certo dia fui pegar uma caixa de leite no fundo de uma das geladeiras e ela estava coberta por sangue de peixe. os chinas colocaram cabeças de peixe soltas, sem uma vasilha, no andar da geladeira logo acima da minha caixa de leite...

    4- os companheiros de trabalho, aahhh, essa era a parte terrivel. todos os tipos de "furyos" imaginados, encontrei ali. o chefe da equipe não tinha um braço - nem fiz questão de saber como o perdeu. ele tinha duas filhas beatas com cara das gemeas sinistras do corredor d´O Iluminado. o irmão delas parecia bem normal, até eu observa-lo bebendo uma xícara de café e segurando o pulso firmemente com a outra mão: um tique nervoso o impedia de ter controle sobre a própria mão direita e provavelmente tomaria um banho de café se não o fizesse; uma japonesa completamente maluca comandava outra maquina. esfregava a barriga em circulos com a palma da mão direita constantemente. tinha ataques de histeria se por acaso jogassem a seus pés um chumasso de pelos acumulados de sujeira dos lençois (...!). dentre todos que ali trabalhavam e que até daria pra trocar uma idéia, acreditem, o mais razoavel era um japinha baixinho, se chamava Dana, me lembro. trabalhava o tempo todo, sem parar. eu disse DARIA, se não fosse o caso dele ser SURDO-MUDO.

    essa era a situação que eu me encontrava no dia de natal de 1999, ha exatos 10 anos atrás. nesse dia trabalhei cerca de 13 horas, só parando 40 minutos pra degustar um almoço amargo e completamente desprazeroso, e depois dormir um sono pesado e incomodo na minha caixa de fósforos. deve ter sido o único dia da minha vida que me incomodei por não estar comemorando o maldito espírito de natal. acho que até um mulçumano ia preferir comemorar o natal, nessa situação...

    coisa de 2 dias depois, ao terminar um desses despendiosos dias de trampo semi-escravo, ao chegar no meu quarto pra descansar, levantei uma aba do cobertor que estava com sua ponta encostada no chão e debaixo dele despontou uma aranha enorme em posição ameaçadora, levantando as patas dianteiras indicando um bote venenoso. dei um pulo arremessando chinelo e praguejando os quatro ventos, e o bicho ainda conseguiu escapar de ser esmagado. o problema foi pra dormir aquele dia, sabendo da sua peçonhenta presença rodando meu quarto. no dia seguinte, antes do almoço, um dos brasileiros que constantemente me fornecia comentários inúteis sobre a situação, as pessoas dali e a vida em geral, me soltou a pérola fulminante. chegou em mim sorrateiro, de canto de boca e desconfiado de algo no ar, e me disse: "amigo, ontem me aconteceu algo que tem acontecido com frequencia na últimas semanas: eu vi o diabo..."

    aquilo me bastou pra parar de fazer o que estava me ocupando, me afastar cautelosamente do psicopata e recolher TODAS as minhas coisas, amontoando-as num canto do quarto. comprei um bilhete de trem e fui dormir na casa de um casal de amigos numa cidade ha quilometros dali. no dia seguinte, com a ajuda desse casal, fui até o alojamento com uma van, peguei todas as minhas coisas e mandei enfiar as 2 semanas de salário no rabo de qualquer butyô que passasse por ali naqueles dias. não me lembro de ter feito algo tão certo na minha vida inteira como nesse dia, me dispensando das duas semanas que vivi no inferno shintoísta: depois desse, qualquer outro natal, por mais insípido, odioso e banal por qual eu já tenha passado, foi mamão com açucar.

    esse natal de hoje também não foi as mil maravilhas, mas foi ok. duvido ainda que natal seja relamente uma data prestigiosa. pelo menos as coisas melhoraram pra mim; o ano novo me promete uma caralhada de coisas boas de verdade, a começar pelo reveillon que, me parece, será um dos mais animados dos ultimos anos também. motivos pessoais, claro. o que importa é estar subindo pro topo de forma que quando olhar lá de cima, todo o resto vai ser só soltar o freio de mão que vai descer suave na banguela. ou seja: tomara que todos também tenham um natal melhor que o meu de 1999! saca. e um bom próximo ano também vai bem pra vocês, não precisam agradecer.

    boas entradas, seus putos.


    Em Círculos

  • quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
  • Wash.
  • acordei dum pulo, daqueles que se sente quando está quase dormindo, entrando no primeiro estágio do alfa. o cérebro ativa o stand-by e você sente praticamente a alma levitando, logo acima do corpo. um movimento do mouse e o cérebro sai do entorpecimento, a alma sente se desequilibrar da levitação e cai de volta dentro do invólucro de pele e osso. e então você acorda.

    meio desperto meio confuso, meio sem saber exatamente onde estava, só tive o tempo milimétrico de olhar pela janela do ônibus e sentir o estrondo, a pressão do impacto no vidro. um paralama inteiro entrando pelo horizonte do Interestadual, abrindo caminho para o corpo sólido de ferro que se retorcia a cada resvalo, a cada choque com todo vidro, lataria, poltronas, músculos e ossos que encontrava pela frente. meio minuto antes, o motorista do velho maverick decidira que acabaria com aquilo de uma vez por todas, não importasse como seria, não importasse a quem acertaria para que sua missão tivesse sucesso: na verdade mal pensou nisso, na consequência que seu ato teria para terceiros, já que o ódio dominava completamente seu corpo e espirito. fechou os olhos, girou de uma vez o volante do carro para a esquerda e planou por segundos na encosta da estrada. o desnível da ladeira entre as duas pistas o guiou diretamente na direção da janela do imponente Interestadual, ao qual entre outros passageiros, lá estava eu embarcado. ao final do completo e desolador impacto, abri meus olhos, repletos de vermelho em todas as suas nuances e tonalidades. limpei o liquido viscoso que os cobria. escorria não sei de onde, talvez de mim. ainda turvos, enxergaram a ponta do parachoque à menos de um metro da minha cabeça. o passageiro na poltrona à minha frente não teve a mesma sorte.

    acordei. confuso, mais uma vez. ainda me vi dentro do ônibus, intacto. a estrada seguia calma, sem qualquer sinal iminente de acidente. vidros inteiros, fuselagem impermeável, passageiros dormindo. o passageiro da frente lia um livro, tranquilo, sem sequer um arranhão. demorei cerca de meio minuto pra processar a informação de que aquilo tudo teria sido um sonho - péssimo sonho, diga-se de passagem - mas tudo não passava de uma infeliz ilusão. eu continuava lá, e milagrosamente teria escapado do acidente fatal, por um ato inexplicável o automóvel não me alcançou dentro daquele complexo destino do impacto e... não! ainda estava pensando que teria acontecido! foi tudo tão real! senti cada pedaço de vidro que penetrava meus braços e peito... mas não, agora estou acordado, foi só um sonho. só um bem moldado pesadelo.

    de volta pra casa. recuperado pelo mal-estar daquele pesadelo, me sentia bem ao voltar pra casa. ou pelo menos por um segundo: me lembrei de toda a crise por qual estavamos passando, eu e ela. me lembrei das ultimas semanas, de toda a paranóia que ela fantasiava sobre minhas viagens, sobre todas as mulheres inexistentes que ela criava como minhas amantes a cada cidade por qual passava, uma doença intermitente e cansativa que já vinha se extendendo pelos ultimos cinco anos, desde que realmente nos tornamos íntimos, conviventes, marido e esposa. seus escandalos em locais públicos e confusões alarmantes dentro de nossa casa, já conhecidas por toda a vizinhaça, realmente me deixavam maluco. eu me segurava até além de qualquer limite que eu sonhava que um dia poderia ter. é, eu não me sentia tão bem assim ao voltar pra casa. fato.

    com o paletó debruçado num braço, girei a chave no buraco da fechadura com a mão livre que sobrava. uma xícara pesada, cheia de algum líquido escuro, acertou a parede perto da minha cabeça:

    - como foi com aquela vaca? tava confortável lá no puteiro que vocês arrumaram?...
    - do que você está falando de novo, mulher...
    - você sabe do quê!!! aquela vaca com quem você tem trepado ha meses e meses, você sabe de quem estou falando! ...você é muito dissimulado mesmo... (e mais objetos voavam em minha direção. alguns acertavam o alvo.)
    - de onde você tira essa idéias, pelo amor de deus...??? (e eu só pensava em cigarros, mesmo sem nunca ter fumado)
    - você desliga o telefone! você sempre demora mais do que planeja comigo!! e dessa vez nem se deu ao trabalho de tentar sumir com os pertences dela!: deixou um laço de cabelo dela na pia do banheiro! eu conheço meus laços de cabelo e esse DEFINITIVAMENTE NÃO É MEU!!!
    - Julia, por favor!!! tem áreas no interior que não tem alcance de sinal de celular!!! você sabe disso!! onibus nunca chegam na hora, existe uma coisa chamada TRANSITO! e esse laço de cabelo é da minha irmã, ela esqueceu em casa no fim de semana passado, lembra?? aaahh, saco, Julia!!!
    - impressionante como você encontra explicação pra tudo né...
    - claro que tudo tem explicação!!! se nada que você diz faz sentido, todo o resto tem de ter explicação!! nunca pensou nisso?? você tá me deixando maluco, Julia! maluco!!...
    - pois chega!! chega! não aguento mais isso, de todas essas mulheres! sinto esse cheiro em você, você nunca me enganou, nunca vai me enganar. chega!!

    e chegou mesmo. chegou pra mim. mal consegui deixar minha pasta sobre a mesa de centro da sala, peguei as chaves do carro e sai sem nem pensar no que estava fazendo. quando me dei por mim, já estava na estrada de novo. na estrada. de novo. e o cansaço me impedia de pensar porque tudo que queria era tomar um banho, comer algo, ligar a tv. dormir. cada detalhe do meu inferno pessoal, cada motivo sem fundamento da minha culpa voluntária, tudo isso ia acumulando em pensamentos torturantes, sem sentidos. sem solução aparente. eu a abandonaria. ahh, estava certo disso, eu a deixaria! só assim resolveria essa via crucis auto-imposta. mas não, não poderia: conhecendo-a até o ponto que cheguei, sabia que não seria tão facil: ela não era do tipo que sabe perder. ela alegaria algo, agressão, qualquer coisa que conseguisse convencer uma tribuna sobre seu marido ausente, violento e viciado em algo que eu nunca havia experimentado. isso não teria um fim que apaziguasse minha alma perturbada.

    decidi que acabaria com aquilo de uma vez por todas, não importava como seria. não importava quem acertaria para que minha missão tivesse sucesso: na verdade mal pensei nisso, na consequencia que meu ato teria para terceiros, já que o ódio dominava completamente meu corpo e espirito. fechei os olhos, girei de uma vez o volante do maverick para a esquerda. ele planou por segundos na encosta da estrada. o desnível da ladeira entre as duas pistas me guiou diretamente na direção da janela de um Interestadual que cruzava a estrada no sentido contrario. infeliz coincidencia, justamente no mesmo minuto que decidi meu fim.

    atravessei a janela, cravando o carro no interior do onibus, fundindo os dois corpos metalicos em fumaça e gasolina. não sei exatamente como, quem sabe uma última e fatal alucinação, mas por um momento me vi sentado no banco ao lado onde o carro pousou. e eu me olhava ali, na minha frente, apavorado, como num pesadelo caótico espelhado e coberto de sangue. dizem que é a confusão criada um segundo antes de morrer: um deja-vu na forma de um espelho tri-dimensional, irreconhecivel a si proprio, mas inegável ao aceitar seu destino.