sobre o cemitério de pombos

  • segunda-feira, 5 de maio de 2008
  • Wash.
  • esses dias eu tava rolando uma idéia old school com meu caro amigo igualmente old school Daniel Discarga (também atualmente conhecido como Daniel Reggaeiro Safado, mas isso não vem ao caso...) Enfim, falavamos de coisas que a gente passa na vida, coisas normais, coisas doidas; "cara!... a gente viu um cemitério de pombos, poh!"... ele falou. me deu um estalo e lembrei dessa porra toda muito escrota que rolou de cemitério de pombos.

    a gente tava em Barcelona. era fim do rolé da tour de 2005 do Discarga / I Shot Cyrus então depois do último show eu e meu amigo Daniel resolvemos ficar por lá um tempo, tentar a sorte, arrumar um trampo, sei lá, qualquer coisa. tentar dar um giro na vida de novo é sempre bom, se você não sabe ainda vai saber que é bom dar esses giros na vida. sair do eixo. enfim, demos uma fuçada nos contatos que tinhamos por lá e descolamos um canto num squat em Badalona, zona leste da cidade. cara, você passa por squats em vários cantos da europa, e em cada canto tem um estilo de se manter um squat: na Alemanha eles são super limpos e organizados, por exemplo. tudo no lugar, tudo limpo, varrido, despensa de comida organizada, turnos pra lavar louça, colchões "meio limpos"... é tudo catado por aí, então de quaquer forma NUNCA vai ser 100%. mas os alemães deixam tipo no 70%, vai... agora tem outros cantos que é triste. triste. e em alguns cantos da Espanha, é beeeeem triste. pois bem: esse lugar era um Ian Curtis de tristeza, digamos assim...

    potz, era sujo. era muito sem recursos, não rolava um bom esquema de limpar, não rolava recurso pra limpar. não tinha água encanada no banheiro, portanto usar a privada era impraticável e tomar banho nem pensar. eu tenho uma certa paranóia com banhos, tenho que tomar banho e lavar a cabeça todo dia, se possivel mais de uma vez por dia. nesse lugar eu fiquei duas semanas sem poder tomar banho. não tinha como cozinhar também, no máximo fazer um chá quente. no quarto que a gente descolou não tinha iluminação, então tinha que se virar pra ler ou arrumar as malas ou conversar até antes de escurecer, porque depois era só pra dormir mesmo. as janelas e a porta estavam quebradas, então a corrente de vento era contínua. um vento de gelar os ossos, já que o inverno se aproximava, em dezembro. era um sobrado abandonado e a parte ocupada era no segundo andar: o primeiro andar era uma montanha de lixo. pra se ter um idéia, o passatempo da galera do squat era acertar ratos no quintal forrado de lixo com uma arminha de chumbinho.... cara, depois que eventos assim estão guardados no passado, até que é divertido lembrar. mas viver o presente disso é tenso. foi tenso. um dia acordamos com o pessoal do squat marretando uma parede, invadindo o predinho abandonado ao lado. eram várias casas enfileiradas numa rua, todas abandonadas; não se sonha com coisas assim aqui, mas lá rola bastante. com a marreta eles abriram um buraco pequeno na parede e entraram. seguimos por curiosidade, pra ver no que dava...

    lá dentro da casa tudo estava no lugar. na cozinha existiam mesa e cadeiras dispostas em volta, um fogão e uma geladeira, um armário com louça lavada dentro... tudo recoberto com uma camada absurda de pó, mas tudo organizado. peguei um jornal em cima da mesa, com cara de que fora abandonado lá na mesma época dos outros objetos. a data do jornal marcava março ou maio de 1991, se não me engano. não conseguia acreditar que aquilo tudo estava ali abandonado por tanto tempo, sem ninguem requerer ou reivindicar a posse daquilo.
    da cozinha passamos por um corredor que dava num quarto, com tudo no lugar também: armários com cabides e roupas penduradas, uma cama de madeira de lei com um colchão de mola enorme sobre, e com alguns raincoats jogados também. da janela dava pra ver uma sacada podre, que provavelmnete desmoronaria à menor pressão do pé. nem arrisquei. o gran finale foi tentar entrar na sala. estava muito escura, não dava pra enxergar o chão onde se pisava, curiosamente fofo e com uns galhinhos que estalavam ao peso do corpo. um de nós conseguiu, andando sobre esse chão "orgânico", chegar até a janela e nos livrar um faixo grande de luz, pra nossa desagradável surpresa: o chão da sala estava forrado por carcaças de pombos, dezenas delas, talvez mais de cem, por todo o assoalho. estavam ali a tanto tempo que as carcaças estavam ressecadas, mumificadas, só existiam ossos e penas espalhadas pelo chão. só não foi pior por isso: não existiam mais visceras ou orgãos internos, nem tampouco os vermes que devem ter devorado tudo ha muito tempo. acho que eu teria vomitado. a atitude de todos foi enrolar a camiseta na frente do nariz e da boca, afim de evitar qualquer possivel contaminação daquele palco de cadáveres...

    saimos todos de dentro da sala, e da casa. eu e Daniel não voltamos naquele lugar, alias nem os punks que marretaram a parede creio que não tenham voltado, porque realmente foi uma imagem chocante. não teria condições de limpar aquele lugar, então acho que eles desencanaram... agora eu vivo pensando: como aqueles pombos todos entraram ali? e como não conseguiram sair, e morreram todos ali? e o que teria feito aquela casa ser abandonada assim, aparentemente de um dia pro outro, e talvez às pressas? ...sei lá. o caso é que no dia seguinte acordamos de manhã, antes de todos, arrumamos nossas malas e vazamos dali, sem nem nos despedir de ninguém. fomos pra casa do Guille e do Miqui, sem nem avisar direito. ali ficamos por mais uma semana e depois fui pra casa de um amigo no lado norte da cidade e o Daniel foi pra Belgica. decididamente, Barcelona pode ser muito mais interessante do que ir nas baladinhas noturnas de gringos ou passear nos Gaudis da cidade, hehe... ocasionalmente quando penso em coisas bizarras que já vi, me lembro da casa com um cemitério de pombos na sala. não deve ter sido a pior coisa que eu já vi, mas dá pra entrar fácil num Top 5, digamos.
    ai ai... me deu fome. acho que vou procurar algo pra comer agora.

    sobre linguados

  • quinta-feira, 1 de maio de 2008
  • Wash.
  • você já viu um linguado?... é, aquele peixe marinho que fica no fundo arenoso do oceano, meio que submerso numa camada fina de terra pra dar seus botes em peixinhos desavisados e outros seres semi-insignificantes que transitam despreocupadamente em sua volta... sabe? então. noutro dia eu tava olhando esse peixe. tava detalhando o formato dele. ele é visualmente um peixe achatado, um formato ideal pra se enterrar na areia e esperar, acomodado ali. mas se colocado verticalmente, como os outros peixes que vagam nadando, ele tem um detalhe bizarro: ele é um peixe comum de um lado - com escamas, barbatanas e nadadeiras, boca, guelra, orificio nasal, e os incomuns dois olhos do mesmo lado da cabeça... e do outro é como se fosse apagado! como se uma criança desenhasse só o CONTORNO de um peixe num papel; é EM BRANCO, não tem nada, olhos, barbatanas, escamas... nada. só o contorno da boca.

    agora a minha dúvida é a seguinte: como isso aconteceu??... a partir de que momento no ciclo evolucionário esse bicho resolveu deitar no chão e APAGAR um lado inteiro do corpo? e como um dos olhos PASSOU pro outro lado da cabeça??? foi assim, "ploft", de um dia pro outro? ou foi lentamente, de filho pra filho, cada geração um pouquinho mais pra esquerda, um pouco mais, um pouco maaais...? pegadinha de deus, esquema "serginho mallandro fisstaylle"??? yep. acho que pior que essa, só a do ornitorrinco...!

    só uma viagenzinha; coisa de quem tem tempo pra ficar pensando em nada, eu acho. acho que os antigos filósofos tinham MUUUITO tempo vago.

    enfim...

    sobre viver ou morrer

  • terça-feira, 29 de abril de 2008
  • Wash.
  • foi o próprio Jeff Buckley que deu indícios, na música "Grace", que já estava preparado pra morte. ele tinha 30 anos e tinha uma iniciante carreira promissora, então nem sei bem se acredito nisso também, mas pro cara dizer coisas como "minha hora está chegando e eu não tenho medo da morte" ou "eu sinto eles afogando meu nome"... cara; alguma coisa ele já sabia. ou já planejava, já que até hoje é um mistério como ele se afogou. o corpo dele encontrado numa margem lamacenta do rio mississippi, uns kilometros à frente, alguns dias depois: pode ter sido acidente. pode não ter. enfim, a morte estava ali presente, quase fisicamente.

    ela te faz pensar. já pensei na morte muitas vezes. quando se é uma criança e se descobre o que é a morte, é bem assustador. primeiro porque naturalmente temos medo do desconhecido. as coisas que vêm à cabeça de uma criança normalmente são confusas, então juntando A+B, o medo dobra. triplica. quadriplica, e o dobro disso. o medo da morte era tão forte em mim que eu não conseguia dormir; certa época fiquei uns 40 dias sem dormir direito pensando nisso, e sinceramente não é lá muito sadio pra uma criança ficar pensando na morte. mas às vezes eu acredito que foi bom descobrir cedo sobre a morte e seus mistérios; isso dá tempo suficiente pra trabalhar a cabeça, e por mais misteriosa que continua sendo o que há depois da morte, você chega à simples conclusão que ela é normal, faz parte da vida. e é inevitável. o pior mesmo é a eterna curiosidade felina que atormenta a todos: qual será o dia que ela vai chegar?...

    aprendi a não me preocupar com isso também. o dia que ela vier é porque é pra ser, é porque tá na hora. tá lá, escrito. tampouco me importa qual será o dia. o importante é não deixar de viver até o dia chegar: viver por viver é menosprezar o que a vida te proporciona.

    eu já vi um homem morrer. na prática, morrer é só deixar de viver, não fosse o sintoma de especismo que te passa desapercebido; eu digo isso porque você já deve ter visto um inseto morrer, uma lesma morrer, uma planta morrer, um rato, até um animal maior como um cachorro ou um cavalo morrendo. mas um homem morrendo.... sei lá, é diferente. mexe com você, instintivamente. é seu semelhante, pode acontecer com você também. poderia ser VOCÊ ali agora, mas foi ele. tudo isso e mais um monte de coisas faz você pensar muito, durante dias, até se cansar e voltar a não se preocupar com isso. por isso a morte faz parte da vida.

    ele trabalhava comigo, na época. eu era um garoto, 17 anos, não tinha visto muita coisa ainda, acho que não tinha visto nem uma mulher pelada ainda na minha frente, então imagina que era um cabaço mesmo, um cabaço pra vida. mas não foi vacilo meu, eu só presenciei, então isso não me traumatizou nem me causou problemas. pra mim, foi só uma experiência. enfim... eu trampava com desenho mecanico numa empresa de pequeno porte, uma metalúrgica, e esse cara era só um encarregado de serviços gerais, um quebra galho geral, pode se dizer. naquele dia eu almocei e fui sentar debaixo de uma varandinha, pra observar o movimento do trânsito e pessoas que circulavam na calçada, enquanto rolava a digestão. esse cara subiu no telhadinho que fazia minha sombra e começou a consertar um vazamento na telha, sem notar com muito cuidado um desse pinos de porcelana condutores de energia, não sei o nome dessa joça, que puxa a eletricidade do poste da rua pra divisora interna da fábrica; ele lá trabalhando no vazamento e eu sentado, observando os carros. de um momento pro outro ouvi aquelas onomatopéias que usam em efeitos sonoros para filmes, aquelas que indicam uma descarga elétrica, tipo "bzzz bzzz bzzz"!! bem forte, e pelo canto dos olhos na nuca vi fagulhas de fogo e um calor intenso nas costas. tudo isso foi cerca de 3 segundos, o que dá tempo pra instintivamente se levantar correndo, dar uns 5 ou 6 passos e olhar pra trás pra entender o que está acontecendo: vi o cara fritando por mais 2 segundos no máximo, e a corrente elétrica foi bloqueada automaticamente, livrando o corpo dele pra cair pesadamente no solo, como um fantoche, como um boneco de pano. o que rolou pra isso acontecer foi surreal: no momento que ele consertava o telhadinho, a estática da energia que passava pelo pino de porcelana foi tão grande, tão forte, que puxou o cabelo dele - de meio corte no pescoço - e foi o cabelo o único condutor da eletricidade à passar coisa de 18 mil watts pelo resto do seu corpo. ele fritou. só não virou um carvão porque a corrente caiu, foi interrompida.

    ele bateu no chão. me lembro dos olhos dele, esbugalhados, abrindo a boca pro último expiro de puro gás carbonico, que saiu em forma de leve fumacinha branca. indicou que por dentro ele cozinhou. um cara que passava na rua na hora correu pra socorre-lo com massagem cardiaca e respiração B-A-B, eu corri pra dentro da portaria, liguei instantaneamente pro resgate. foi o que deu pra fazer, foi o que eu soube fazer e foi o que consegui pensar em fazer naquela hora. mas acredito que aquela fumacinha branca foi o último respiro de vida que o corpo dele deu: quando o resgate chegou ele já estava morto. foi fulminante.

    sinto até que invado um pouco a privacidade e a memória in vita do cara; mas essa imagem faz parte de mim agora. eu me apropriei. na polícia tudo ficou esclarecido e comprovado que foi um acidente de trabalho, creio que a família dele tenha sido indenizada por isso. é estranho que não me lembro do rosto de muita gente dessa época, nem tampouco de muitos afazeres que eu desenvolvia. pior ainda: nem me lembro do nome dele. e nem sei se ele estava preparado pro seu último dia. mas nunca vou esquecer o rosto desse cara, e seus olhos estalados, fixos no nada, em seu último minuto. foi o dia que eu vi a morte.

    sobre terremotos

  • quinta-feira, 24 de abril de 2008
  • Wash.
  • o povo daqui é meio "afobado" quando se trata de alguma coisa nova na rotina diária. um terremoto, por exemplo. por mais absurdo que pareça, acho que nunca se deve descartar que, de fato, eles podem acontecer. aviões caem: acontece. macacos raivosos atacam pedestres em ruas urbanas: acontece. padres tentam bater recordes de vôos em balões de hélio e desaparecem em pleno oceano: ACONTECE!... e porque terremotos em placas fixas tectônicas não podem acontecer? só porque são fenômenos naturais não causados pela ação humana?... bobagem: isso não existe mais, então ACONTECE sim! as pessoas deveriam se acostmar com a idéia de terremotos em São Paulo sim, deveriam achar normal, corriqueiro, deveriam obter o hábito de se esconder debaixo das escrivaninhas e carteiras escolares como os japoneses; como o cara do noticiário disse, faltava isso pro Brasil entrar no plano dos países de primeiro mundo: agora só falta nevar em Belém do Pará...

    minhas experiências com abalos sísmicos foram agradáveis. não estou sendo cruel, muita gente já morreu com essa porra; mas os 3 ou 4 terremotos que presenciei foram fracos, na mesma média desse que rolou em São Paulo. o primeiro foi nos primeiros dias que cheguei no Japão, em 98. já tinha visto trem-bala, kogarus e bossozokos... só faltava o "dishim". foi um pouco decepcionante. foi fraco, nem lembro o que eu fazia na hora, foi mediocre, tipo uma azia comum, daquelas que só balançam o estômago. botei em jogo todo aquele "auê" que faziam sobre terremotos que destruiram cidades inteiras, como o de Kobe... pensei até se aquilo não teria sido uma bomba norte-coreana ou algo assim. é uma visão meio cretina da situação, afinal se já de cara eu pegasse um de 8 graus na escala Richter, eu já empacotava ali mesmo. e isso não é uma maneira feliz de presenciar um terremoto; mas um mês depois veio um bem massa: eu tava no supermercado com uma cestinha na mão comprando pão e coisinhas, e o chão deu uma "saida" do lugar. as prateleiras bailaram levemente na minha frente, os potes de vidro fizeram aquela musiquinha batendo uns nos outros. travei seco. ali não passou uma agulha, um grão de areia. olhei pros lados pra ver a reação dos japas, porque a minha já estava a ponto de largar a cestinha no chão e sair correndo porta afora, como se isso resolvesse merda... mas tive o bom senso de olhar pros japas e eles, friozinhos como são, continuavam seus afazeres como se nada acontecesse. relaxei o esfíncter e fiquei de boa de novo. mais tarde eu descobri que se alguns vidros começassem a cair pelo chão, um pequeno caos teria se instaurado; só assim eles se desesperam. enquanto não cai nada no chão, os japas dizem "shimpaishinai". nesse dia cheguei de volta do supermercado e a nilce tava branca, com os olhos arregalados, dizendo que tinha dado um pulo da banheira na hora e por um minuto a mais não sai correndo na rua só de toalha... teria sido engraçado, pelo menos.

    a terceira experiência foi pseudo-lisérgica. eu tava dormindo e pensei que aquilo estava sendo um sonho, ou um diabo parecido, quando ouvi a casa ranger toda toda a madeira e as prateleiras balançarem inteiras. essa vez foi a mais assustadora porque à noite você não tem noção de NADA que tá rolando, nem sabe o que fazer, pra onde correr no escuro... é foda! mas foi só um balanção, nem passou disso. depois desses, vira-e-mexe eu sentia vários de menor intensidade, nem dava muita bola. mas passei a acreditar que essa porra pode destruir uma cidade inteira só com uma espreguiçada. a grande sorte da humanidade é que esse planeta deixou de ser cruel já ha alguns milhões de anos. trocando em miúdos, ou exemplificando de uma forma bem vulgar, a terra "peida" e as pessoas já tremem na base: o dia que a terra tiver uma diarréia brutal, todo mundo vai pra merda. literalmente.

    sobre o rádio

  • segunda-feira, 14 de abril de 2008
  • Wash.
  • Engraçado como certas coisas somem do dia-a-dia da gente. Você tem uma rotina (algumas rotinas podem ser legais! pode acreditar...) e está habituado a fazer aquilo todo dia, e de repente um ponto dessa rotina vai sumindo, inexplicavelmente. o rádio, por exemplo: o rádio fazia parte da minha vida durante vários anos e, de repente, ele sumiu. desapareceu. não ouço rádio desde 94, quando a Brasil2000, a última (e única) "college radio" de São Paulo mudou sua programação pra uma coisa mais "ordinária" ao costume diário juvenil de massa; ou seja: passou de fudida pra uma merda inaudível. sabe o que é vc ligar o rádio em casa, no trabalho, no carro, pra ouvir Husker Du, Fugazi, Gumball, Jesus Lizard, Lemonheads na programação normal??!! e no dia seguinte você sintoniza a mesma estação e tá tocando Charlie Brown Jr, Skank... Alexandre Pires!!!... você tem uma grande decepção, pra não dizer uma porra de um ataque.

    Acho que sou da última geração que conheceu o rock via FM. depois da minha, já começou a internet. e hoje é o mundo que conhecemos, nem preciso falar disso. me lembro que comecei a ouvir rádio, como todo garoto de perifeira, na cozinha de casa no radinho da mãe, que a acompanha no dia de trabalho dentro de casa. um tempo depois meu pai me comprou um gravador de fita cassete com rádio e dai comecei minha aventura particular pelas sintonias das FMs de SP; passava mais tempo com o rádio do que na tv, ou até mesmo brincando na rua. daí pra ir pegando gosto pelo rock, metal, punk, foi tudo gradativo. e em função principal do rádio. descobri a 89FM, logo no seu comecinho, e era fudida: o programa Trip89 do Paulo Lima (da revista TRIP) era um dos meus preferidos, junto com o Comando Metal do Vitão Bonesso, nos domingos à noite. ouvia e pegava todas as novidades. óbvio que não era tão fácil como hoje em dia, que é só entrar no soulseek e baixar tudo: anotava o nome da banda e o play, ia na galeria e procurava o LP, comprava e ouvia em casa. era dificil, mas era um rolé curtido.

    O próximo passo foram os programas da madrugada da 89: os programas do Kid Vinil, o Caixa Preta do Sérgio Sá Leitão e o Rock Report do grande reverendo Fábio Massari. foi quando eu comecei a virar um insône...! e com esses 3 programas eu simplesmente pulei de U2 e Midnight Oil pra Stooges, Replacements, Unsane, Osrich Tentacles, Jon Spencer Blues Explosion, Ministry... foi uma evolução fudida!

    Paralelamente nessa época, minha programação diária do dial era a Brasil2000 mesmo. horário comercialzão e os caras rolando MC5, Fugazi, Big Black, Sonic Youth... inconcebível pra uma rádio hoje em dia. uma vez eu tava no trânsito fudido e os caras meteram uma coletânea da Rhino de ponta a ponta, só de punk classe A, as 3 da tarde: Husker Du do primeiro disco, MDC, 7 Seconds, Misfits, Dickies, Minor Threat, Circle Jerks, Germs... cara, abri a janela no meio do trânsito e botei o som a fuder. foi animal. é um desses momentos particulares que não se esquece nunca. e isso tudo, pasme, numa rádio.

    Nessa mesma época eu descobri, meio sem querer, que rolava um programa chamado Garagem (acho q na Cultura FM...!) encabeçado pelo jornalista André Barcinski. eu já conhecia as opiniões dele sobre rock desde a revista Bizz: meio que um paga-pau do Lester Bangs no quesito "expressão escrita"... mas o gosto do cara não mudava por isso: odiava o Dio e idolatrava os Ramones. pra mim é o suficiente. e foi nesse programa que eu ouvi o melhor rock/punk/hardcore e que até então eu não conhecia 80% das bandas. minha evolução musical graduou daí em diante. se bem me lembro, esse programa não durou muito tempo na emissora porque os caras botavam umas promoções escrotas pros ouvintes do tipo "mandar dono de gravadora se fuder"... e mesmo com uma boa audiência - talvez a melhor da emissora - o programa saiu do ar. voltou anos depois na Brasil2000, mas aí eu já tinha desencanado do rádio e não consegui voltar a ser um ouvinte assíduo. coisas da modernidade. culpa da internet, provavelmente, que deixou todos nós "malacostumbrados" com a facilidade. por exemplo, ontem um amigo me perguntou de uma música antiga do Big Boys; eu entrei no site da amazon, descobri que música era, entrei no slsk, baixei o som e mandei pra ele pelo msn: "essa mesma!", ele disse. tudo isso em 10 ou 15 minutos. e o que dizer sobre o rádio??? ...você ouve rádio?...

    daí não tem como competir, né...

    sobre a memória

  • domingo, 16 de março de 2008
  • Wash.
  • "se a minha memória tivesse data de validade, seriam de 10 mil anos..."

    essa frase é dita por um personagem do filme Chunking Express, de Won Kar-Wai. devo ter assistido esse filme pela primeira vez há uns 10 ou 11 anos atrás, mas até hoje essa frase retumba e ecoa na minha cabeça. não é por algum momento especial que eu tenha passado na vida até aqui. mas pelo que ela resume pelo que ela dá significado. às vezes parece que a quantidade de lembranças é tão vasta que é quase impossível ter vivido aquilo tudo em apenas uma vida... eu não acreditava nisso, assim como em muitas coisas em que hoje acredito, mas é verdade. é real. o corpo é uma formiga e a memória é um elefante.

    percebo isso quando as pessoas me perguntam "o que eu fazia antes disso?"... aí vêm um suspiro longo e a resposta imediata é sempre: "muita coisa. já fiz muita coisa na vida"...

    à primeira vista pode parecer alguém perdido, tentando dar um sentido na vida pra si próprio, escrevendo desse jeito. mas daí, depois de contar algumas (eu disse algumas, não todas) coisas que eu já fiz, o ouvinte sempre solta a mesma sequência de expressões: "nooossa! quanta coisa!!"... e em seguida vêm aquela: "e depois de fazer tudo isso, o que vc tá fazendo aqui?"... daí a resposta não vêm de imediato. eu sempre penso pra responder isso, ela entala um pouco. às vezes é "não sei... sinceramente!"; e às vezes é "c'est la vie!"... vai muito do dia, ou da minha animação.

    o mundo dá voltas. ontem mesmo eu tava tentando me lembrar qual foi a primeira vez que eu passei na rua que eu moro, e porquê. daí lembrei que poderia ter sido em 1994, ou 1995, com alguns amigos. mas de instantâneo mudei a resposta. eu não me lembro de ter visto essa rua a primeira vez que passei nela: eu havia acabado de nascer, logo ali, no hospital acima.

    e eu já fui e voltei. e fui. e voltei. ainda estou aqui e logo me vou. mas sei que vou voltar, sem ainda saber o significado disso, mas sei que sempre vai ser assim.

    sinto falta de momentos, sinto falta de pessoas e de lugares. sinto que queria estar longe e quando estou longe sinto saudade daqui. sinto que queria dar um sentido novo pra minha vida, toda vez que tenho a sensação que me falta um braço ou a cada momento que o coração incha de dor e parece que vai pular pela garganta. mas é tudo como um ônibus que faz uma linha circular; eu pego esse ônibus e sempre dou sinal pra descer no mesmo ponto. e a verdadeira maldição de ser o único animal que acidentalmente desenvolveu inteligência é ter ganhado de presente a memória, pra sempre voltar a pensar em tudo que já se fez até aqui; pensar que a vida é relativamente curta pro tamanho da memória destinada. e pensar que ainda tem mais...

    c'est la vie.

    sobre Portishead e writer's cramp de novo

  • sábado, 15 de março de 2008
  • Wash.
  • as palavras não vêm. cãimbra de escritor de novo.

    por enquanto só fica na cabeça a fala em português que abre o terceiro e recentíssimo disco do Portishead: "esteja alerta para a regra dos 3. o que você dá, retornará pra você. essa lição você tem que aprender: você só ganha o que você merece..."

    volto logo.

    sobre koans

  • sexta-feira, 21 de dezembro de 2007
  • Wash.
  • a vida é uma coisa doida mesmo.

    não tenho outra palavra pra definir a vida. é uma coisa doida, pronto. quando eu penso que estou entendendo, que estou sacando tudo o que acontece ao meu redor... bum! tudo entra em colapso, em contradição.
    koans. só aparecem koans: o que diferencia a natureza humana da personalidade individual e coletiva? a inteligencia é uma dádiva divina, ou um acidente de percurso genético? pra que serve a VIDA, no sentido existencial da palavra? qual a diferença do SER e do NADA mesmo, sr. Sartre??....

    esses pensamentos batem na cabeça quando acontece algo doido na minha vida. e sempre me bate essas coisas. sempre me acontecem coisas doidas na vida. com muita frequência, você não faz idéia. quando me meto à besta de contar relatos de coisas que acontecem comigo, as pessoas ficam realmente extasiadas. de verdade, com sinceridade! quer ver um exemplo?...

    hoje foi a TERCEIRA VEZ na minha vida que tive uma arma apontada pra minha cara. eu disse a terceira! não foi a primeira vez, nem a segunda. você pode dizer que a pessoa está numa situação overreacted pelo susto, já que milhares de jovens passam por isso todos os dias nas periferias do Brasil, Mexico, França, Soweto... pode até ser. mas de qualquer forma é uma experiência única e pessoal. além disso quantos vivem pra contar? eu. e por 3 vezes, contando com hoje.

    a primeira vez foi na zona leste de são paulo, saindo de uma festa com amigos e uns "função" vieram tomar um de nós. uma jaqueta, bem juvenil, bem hypada. garotos adoram essas coisas, sejam ricos ou pobres. e todos querem ter, sejam quais forem os meios necessários pra isso. eu tinha uns 18 anos, tava bêbado que nem uma porca, e quis trocar ideia com o ladrão pra entender PORQUÊ ELE TAVA ROUBANDO MEU CAMARADA!!! pode dizer... é MUITA cabassisse querer trocar ideia com ladrão, eu sei. só lembro que olhei pra frente e os cano já estavam na minha cara, sem salvação, eu pronto pra ser fuzilado. meu salvador foi o dono da festa, um local respeitado, que entrou na frente na hora final e rolou a ideia, de ladrão pra ladrão. sindicalizado. daí os mano me pediram até perdão, não sabiam que eu era amigo do fulano. a primeira coisa nesse desfecho se chama "ter contatos". e a segunda se chama "nascer de novo".

    a segunda vez que me aconteceu foi num coletivo. voltando com os amigos de um ensaio pra casa, um maluco pula a catraca do cobrador e se aproxima de nós, olhando fixo. ele pediu o boné e nós levantamos todos, quase automaticamente, numa atitude agressiva; "não se ligou não, maluco?? isso é um assalto!", ele disse, enquanto o amigo lá na frente esvaziava a caixa do cobrador. o comparsa vendo que cercamos o maluco, por sua vez, saca o cano e começa a gritar "vou soltar! vou soltar!"... e é acalmado pelo nosso confrontante. "calma, num solta não", ele disse. "os caras nem tavam ligados"... ainda teve consciência pra fazer isso (consciência??...)

    a terceira vez foi hoje. assaltam a loja que eu trabalho com dois ferros cromadinhos, tinindo. levam todos pra tesouraria e lá vai: "abre esse cofre, malandro!!"... você sabe do resto da estória. ou pelo menos já ouviu muitas delas, nessa cidade caótica. e é arma passeando pra lá e pra cá, passando na frente da sua cabeça, dos outros, soltando a trava... por sorte tudo acaba bem e os vida loka saem vazado com o que querem, sem machucar ninguém. depois do choque, depois de pensar que você não vai ver mais as pessoas que ama incondicionalmente, sua vida tá ali, restaurada de novo, sem nenhum arranhão. e tudo fica mais lento, dá tempo pra vc parar e pensar de novo, e de novo, e de novo... os koans vindo um atrás do outro na cabeça.

    a vida é uma coisa doida. pra que servem essas coisas? pra me lembrar que eu sempre tenho mais uma chance? intervenção divina? mas se fosse, porque eu, uma pessoa normal, tive a chance e outras muitas pessoas, também normais, não tiveram? a primeira reação que as pessoas tem nesses casos é rezar, mas a minha não. a minha é sempre pensar nas possibilidades. pensar no que eu já fiz, no que não fiz, no que ainda tem pra fazer. computar várias avaliações, todas as combinações possíveis. eu ajo ou ignoro?, é isso que eu ainda não tenho certeza.

    Agora sabe o que me deixa admirado, intrigado com isso de verdade? foi a terceira vez que apontaram uma arma pra minha cara e não atiraram. agora me responde: até quando isso vai acontecer? até quando isso é POSSIVEL que se repita? isso é dádiva divina, ou acidente de percurso genético?... porque sinceramente, um cara que saca uma arma e aponta pra cara de outro TÊM a intenção de atirar, e existe uma margem de 50% de chance pra que isso aconteça.

    é ou não é?

    são esses koans que vão acabar me destruindo.
    ou me reconstruindo, seja como for.

    sobre "dissincronia"

  • quarta-feira, 21 de novembro de 2007
  • Wash.
  • notei que meus textos têm tomado um rumo meio niilista, últimamente.

    assisti um dia desses esse filme com o Sean Penn, chama "O Assassinato de um Presidente". o enredo parece pobre: um cara desiludido com o mundo coloca a culpa de seus problemas no presidente, então no mandato, Richard Nixon. mas o motivo está longe de ser a razão principal da estória; é impressionante como algumas pessoas não andam sincronizadas como os outros, com o resto do mundo. meu deus, fiquei pensando nisso: como o mundo é dificil, complexo e inalcançável pra algumas pessoas, as dissincronizadas, as que levam a vida em seu prório tempo do jeito que acham melhor. as que procuram se encaixar, e sofrem tentando em vão: aliás, esse filhadaputa do Sean Penn sabe interpretar, viu. pra caralho. dá pra ver o esforço que o cara faz pra se adaptar, o sofrimento em tentar agradar e só ver as pessoas se afastando, as coisas dando erradas. a solidão destruindo uma pessoa que necessita de companhia. em pensar que isso pode estar acontecendo com alguém, seja aonde for, em algum canto do mundo, agora... sim, dá pra imaginar que existam vários "dissincronizados" por aí. em certo grau - muito mais leve por sinal - eu posso até me enquadrar num caso de dissincronização: sem extremismo, claro. sem atitude sociopata, por deus!... comprovadamente eu sei como me relacionar, de boa... de boa... (sic). um dessincronizado só no jeito de ver como as coisas são e como elas deveriam ser, mas até lá eu sei qual é a distância, eu sei que ela não pode ser impedida e eu sei que isso me mantém LONGE de encrenca. enfim...

    realmente, o sean penn sabe dar vida pro bagulho. dúvido que ele seja um dissincronizado como o personagem, mas ele sabe do que se trata, muito bem. ele tira de dentro de si um cara empatado, que quer viver normalmente, tratar e ser tratado com carinho, mas que nunca será compreendido. nunca será aceito. as pessoas o repudiam, acham-no ridículo. e pior, ele nunca saberá como reverter isso. é triste como um pequeno parafuso solto na fuselagem pode comprometer a estabilidade da máquina inteira. engraçado é que se pensar bem, você vê pessoas assim na rua, em seu bairro, na sua vila. algumas dessas pessoas que perambulam sem destino nas ruas de São Paulo podem ter sido pessoas antes como eu e você. a dissincronia foi aumentando gradativamente, o "jogo" do parafuso foi afetando a fuselagem toda, as engrenagens internas. o fim é a rua, a invisibilidade social, o esquecimento. a regra é clara: é a vida como tem de ser vivida, como é imposta, ou a rua... óbvio que todo mundo tem problemas, mas pessoas assim sofrem demais nesse mundo-purgatório, tanto quanto (ou mais) que deficientes físicos, homossexuais, negros, indios, mulheres, sérvios, tutsis, curdos. a crueldade contra as diferenças está espalhada por todos os reinos, imprescindívelmente.

    cada dia que passa continuo achando que o mundo não precisa de mais pessoas, e pessoas não merecem essa vida cretina que alivia um lado pra pesar de outro.

    esterilização em massa já.

    sobre drogas, baixo, sax e bateria

  • quinta-feira, 15 de novembro de 2007
  • Wash.
  • souvenir.
    aquilo nunca tinha me acontecido antes.
    de repente meus ouvidos foram fisgados por esse som incrível, que eu já tinha ouvido milhares de vezes por sinal, que eu nunca havia prestado atenção com tanta minuciosidade por sinal. as orelhas se dirigiram zumbificadas, como se ouvissem o chamado selvagem (que porra de chamado selvagem??!!...)
    sei lá. só sei que fiquei preso, ouvindo, detalhando.
    virou uma neblina e se misturou com lembrança.
    escureceu a sala toda e abriu só um clarão no meio, como aquelas cenas de film noir, chinatown, humphrey bogard... enfim; o que importa é que a fumaça do som se tornou lembrança.
    umas particulas que a gente pensa que perdeu pra sempre, mas não: estavam guardadinhas com cuidado, num cantinho. com carinho até.
    umas ceninhas, da porta de casa, de 4, 5 anos.
    levar o colchão no telhado pra pegar um solzinho do meio dia.
    os anos 80 chegando era a novidade. parece tudo mais claro.
    engraçado: esses caras de cinema realmente conseguem passar conceito de flashback, porque é igual...
    um pouquinho do cheiro da casa dos vovozinhos que tinha no apartamento da frente.
    latas de ferro da coca-cola, com anel pra puxar.
    hidrante que a galera consegue abrir e esguicha vapores de arco-iris no prisma do sol quente de dezembro.
    dias de domingo e amigos caminhando pela pista do aeroporto e deitando debaixo da cabeceira de pouso, completamente desafiando a vida quando se pensa em caos aéreo.
    tudo vindo na mente em 10 milésimos de segundo... que arquivo invejável que essa massa cinzenta comporta. processador nessa velocidade nunca será copiado.

    ...quer tentar? aposto que você consegue também...


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